Moralistas do século XXI

As bolachas Maria esfarelavam-se no interior do saco-de-plástico usado como caixa-de-esmolas em dia de Pão-por-Deus. Não se reciclavam materiais, nem as mães juntavam retalhos e as cooperativas de artesanato ainda estavam para ser inauguradas.

Do alto da nossa moderna superioridade moral, diríamos que era uma irresponsabilidade permitir-se que crianças de tão tenra idade circulassem de casa em casa, batendo à porta de desconhecidos, e, ainda por cima, transportassem nas suas mãos uma tão poderosa arma de destruição maciça.

Deveriam estabelecer uma idade mínima para se poder manusear sacos-de-plástico, esse objeto criado pelo Demo com a intenção malvada de destruir o planeta Terra. Talvez mesmo, obrigar as pessoas a fazerem um curso, tirar uma licença, pagar uma taxa, pagar outra taxa e, assim, ficarem aptas a fazer compras no supermercado e a irem assistir a corridas de toiros.

Diz que o Demo também tem cornos.

As sacas não eram restos de pano como hoje tão romanticamente gostamos de nos fazer crer. Muito do nosso imaginário do chamado antigamente, não é mais do que a sua descrição na forma perfeita, sem mácula, sem tristeza, sem pobreza, sem fome, sem doença. Tudo lavado, asseado, alvo de geada, a roupa a cheirar a frescura e sem nódoas.

Certamente que as havia de pano. Bonitas. Tradicionais. Coloridas. Um colorido que contrastaria com os pés descalços, a roupa suja, os cabelos desgrenhados e uma vela de ranho esverdeado a sair pelas narinas, a caminho da boca, sem que o lenço pegajoso, mas retesado depois de seco o muco, saísse do bolso e cumprisse a sua função. Nada que a manga da camisola, as costas da mão ou uma língua treinada não resolvessem.

Não se saía à rua para cumprir a tradição. Não se saía à rua porque a tradição necessitasse de ser preservada. Não se saía à rua mascarado.

O Pão-por-Deus era parte do nosso calendário de festividades naturais como o ir ao Bodo receber o pão, o correr Meninos no Natal ou o não comer carne em Sexta-feira Santa. Longe estavam os dias em que lutava de igual para igual com o São Martinho, o Dia dos Namorados ou tivesse que medir forças com o Halloween.

Havia quem desse rebuçados. Havia ainda quem se dava ao trabalho de fazer pipocas na panela e as despejasse em punhados no saco de plástico sobrante das compras da véspera. Por vezes parece incrível como era possível fazerem-se pipocas sem micro-ondas, só com um fio de óleo no fundo do tacho e milho alaranjado que, comprado da Base, se fazia acompanhar de um pacotinho de sal amarelo muito refinado, mas que era saboroso como a vida e tão mau para a nossa saúde, agora que só nos alimentamos de produtos biológicos, sem químicos, ao mesmo tempo que nos injetamos com proteínas, botox e reduzimos a nossa alimentação a suplementos químicos que nos deixam belos, musculados e sempre sorridentes.

Com sorte, recebíamos chupa-chupas e chocolates americanos. Com sorte, conseguíamos levá-los todos para casa sem que um menino mais velho, que não seria assim tão menino, nos obrigasse a dar-lhos. Não havia bullying. Era assim, fazia parte das regras e não era permitido chorar.

Os rapazes não choram. Toda a gente sabe disso!

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