Um outono muito vivo

Em frente ao Auditório do Ramo Grande, na Praceta das Artes, as pessoas transportavam livros. Umas levavam-nos na mão, outras debaixo do braço e ainda havia quem os carregasse nos sacos de papel pardo, exibindo orgulhosamente o rosto de Sophia, fornecidos à caixa no momento da passagem do cartão de débito. Verde, código, verde.

O sol de novembro favorecia a descontração e permitia que os bibliófilos da cidade e demais forasteiros se sentassem ao longo do muro que delimita a praceta e na muralha a folhear os livros que, do interior do supermercado que se transforma a Academia da Juventude por estes dias, revelam histórias fantásticas, acontecimentos de vida, memória coletiva, receitas de cozinha, jogos ou fórmulas de melhoramento da autoestima e de felicidade.

Terão sido dezenas as pessoas que escrevem livros a terem a possibilidade de os apresentar neste outono. Muitos, também, foram os escritores que se deslocaram à Praia – e também a Angra – para divulgarem a sua obra e o seu trabalho nesta parceria, que promete dar frutos, estabelecida entre a Cooperativa Praia Cultural e a Biblioteca Pública.

Duas semanas por ano, a cidade que não tem livraria enche-se de letras e de folhas de papel encadernadas. Pena que se confine àquele espaço e não se espalhe por outros locais da cidade, permitindo a que a cultura, os livros e a arte, também eles, não fiquem fechados dentro de portas e possam ser transportados para o espaço público fundindo-se com este e com o património edificado do centro histórico.

Os lançamentos de livros não têm de ser todos feitos ali. É verdade que é naquele espaço que está o posto de venda, mas o objetivo do Outono Vivo não é comercial, digo eu.

Há muito que não se via uma programação cultural tão completa por estas bandas. Música, teatro, cinema, bailado, pintura, fotografia, desenho e muitos livros. Deu gosto ver salas cheias a aplaudir de pé. Foi gratificante ouvir os meus filhos, depois de terem visitado com o colégio a feira do livro, chegarem a casa e dizerem-me que tinha uma senhora a contar uma história, um senhor a tocar música e que precisavam de lá voltar porque tinham visto dois livros que tinham de comprar.

Gostei dos reencontros, de conviver com pessoas com quem me habituei a estar há alguns anos, mas que o tempo, esse impiedoso tempo, fez questão de nos tornar distantes e que agora, o outono nos trouxe até à mesma mesa.

Gostei da atmosfera, de gente a respirar cultura sem que quisesse ser ou parecer intelectual ou procurasse qualquer tipo de protagonismo. Gente que gosta de gente. Que gosta de estar. Que gosta de conversar. Gente que gosta de viver.

Gostei desta edição do Outono Vivo.

Queria dar os parabéns a algumas pessoas e entidades. Mas sei que seria injusto para algumas delas. Nuns casos, correria o risco de esquecimento, noutros, correria o risco de elogiar a pessoa errada e de alguém colher louros imerecidos.

Por isso, limitar-me-ei a evocar duas figuras: Sophia e Natália. Obrigado.

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