A Greta e o Ventura

A Greta passa nos Açores e, prontamente, a máquina da propaganda cola-se a ela procurando apanhar a sua popularidade, mostrando, ilha a ilha, aquilo que no seu entender a menina da moda iria gostar de ver e tomar conhecimento.

Contudo, contrariamente à sua prática, em vez de se mostrar o que há por fazer, o que vai mal, as nossas dificuldades, os nossos verdadeiros problemas, a poderosa máquina prefere esconder, varrendo o lixo tóxico para debaixo do tapete. É uma prática comum, de negação. Diria mesmo que bem ao jeito de Donald Trump ou Jair Bolsonaro.

Evidenciam-se os investimentos em sistemas de produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis, uma mais-valia sem dúvida, mas esquece-se a problemática dos transportes, dependentes praticamente em exclusividade de combustíveis fósseis, com a mobilidade elétrica ainda muito longe de ser uma prática corrente ao nível dos transportes terrestres.

Evidencia-se a beleza das marinas, mas esquecem-se as consequências ambientais decorrentes da sua exploração ou mesmo a pegada ambiental deixada pelas embarcações que as utilizam a que se associam, inclusivamente, os navios de cruzeiro, a nova galinha dos ovos de ouro do turismo regional.

Evidencia-se o feito de termos transformado a caça à baleia numa atividade em que se substituiu o arpão pela máquina fotográfica, mas esquece-se o grave problema do lixo marinho e dos microplásticos que são uma realidade nas nossas praias e um problema na nossa cadeia alimentar e na economia do mar.

Evidenciam-se os prémios ambientais internacionais e os galardões atribuídos pela UNESCO a algumas ilhas, mas esquece-se o problema da gestão dos resíduos, dos armazéns transformados em lixeira por não haver alternativa, do tratamento dos resíduos depositados em aterro ao longo de décadas e que, tal como os dos americanos das Lajes, não são tratados contaminando os solos e os aquíferos.

Os Açores são, sem dúvida, um paraíso ambiental quando comparados com muitas outras regiões do país e do mundo. A Greta iria certamente apreciar as nossas ilhas e deixar-se fascinar pelas nossas belezas naturais e pelas nossas paisagens. Todas têm muito para oferecer e mostrar. Mas também têm problemas. Alguns deles, dificilmente serão solucionados por nós, uma vez que são de dimensão global. Outros, no entanto, dependem exclusivamente da nossa prática, da nossa atividade e da nossa vontade de os resolver.

Não adianta fazer de conta que não os temos. De nada serve só olhar para uns, os de responsabilidade externa, de entidades exteriores à Região, e olharmos para o lado nos de responsabilidade local ou regional como se tivéssemos medo de ser criticados.

Mostrar só o que nos convém é demagógico, hipócrita e populista. Nem o Ventura chegaria a tanto. O André…

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