Não é preciso inventar


Quis o destino que, para sempre, a morte de Francisco Sá Carneiro ficasse ligada à história da minha família. Não que tenhamos tido alguma ligação pessoal ao fundador do PPD/PSD, mas porque, nessa noite fatídica de 1980, a minha mãe prestou provas para se tornar cabeleireira profissional. “Foi na noite em que o Sá Carneiro morreu…”

Não me tornei social-democrata nessa noite. Nos meus tenros nove anos de idade, estava longe de saber o que era a política, os partidos políticos ou a social-democracia. Levou tempo, foi um processo.

O primeiro contacto de que me recordo ter tido com um líder político foi em Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, durante a campanha eleitoral para as históricas eleições presidenciais que colocaram frente a frente Mário Soares e Freitas do Amaral.

Tínhamos ido passar o Natal com os meus avós e, nessa tarde, como em todas as outras, estávamos sentados no Café Central da vila, ponto de encontro em Macedo. A comitiva entrou no estabelecimento e Maria Barroso engraçou com a minha irmã, na altura com dez anos, loirinha e bonitinha como ainda é hoje. Perguntou-lhe o nome e, não sei como, falou-se de Açores. A futura primeira dama, ao ouvir falar das ilhas, chamou o marido e ele e o meu pai ficaram alguns minutos a falar da nossa terra. Não me tornei socialista, mas, na reeleição, votei no Bochechas.

Nessa altura, em 1991, já estava a estudar em Lisboa e Portugal tinha como primeiro-ministro Cavaco Silva. Assisti, na capital, àquilo que terá sido o maior salto de progresso a que este país presenciou depois do 25 de abril. Portugal tornou-se um país moderno e com um sistema político consolidado. Não era crime ser-se oposição, posição ou o que quer que fosse. O país abriu-se. Prova disso foi o aparecimento dos canais de televisão privados que as gerações mais novas pensam ter sempre existido e muitos dos mais velhos preferem esquecer-se que assim tenha sido. E havia o Independente de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso que fizeram a vida negra a Cavaco mostrando o outro lado da governação. Alguém tem de o fazer…

Tornei-me social-democrata e, quando regressei, convidaram-me para ser secretário da Assembleia de Freguesia das Lajes, que ainda não eram vila, e tornei-me militante. Depois disso, já ocupei diversos cargos partidários aos mais diferentes níveis e desempenhei funções públicas durante as quais trabalhei diretamente com três presidentes do partido.

Agora, os militantes do PSD vão ser chamados, novamente, a escolher um novo líder.

Há uns anos, sentados à mesa num casamento, um histórico político açoriano dizia-me que a pior coisa que aconteceu aos partidos políticos tinha sido a eleição direta dos seus presidentes. Percebi o que quis dizer-me e, claro, o método tem as suas falhas. Uma delas, por exemplo, é o facto de não se garantir a eleição de quem é melhor ou tem melhores qualidades políticas e consistência ideológica, mas quem tem maior capacidade de mobilização, o que não é necessariamente a mesma coisa.

Contudo, tem uma grande vantagem, aquela que faz com que o processo tenha sido adotado pela maioria dos partidos, incluindo o PSD. Possibilita a que a discussão das ideias, das propostas ou do caminho a seguir seja feita de uma forma mais alargada, abrangente, envolvendo mais gente. Pena que muitas vezes termine no dia da eleição.

É uma oportunidade.

Tudo indica que José Manuel Bolieiro será o próximo presidente do Partido Social Democrata. Como militante, não lhe peço que renove o partido, que o refunde ou que o reforme. Já percebemos que todos estes jargões políticos têm por único objetivo consolidar o poder, excluindo. Peço, unicamente, que faça do PSD um partido forte, fiel a si próprio, de todos e para todos, fiel aos seus princípios e à sua matriz ideológica. Um partido sempre presente e que não tenha vergonha de ser o que é. Não é preciso mais do que isto.

Não é preciso inventar.

2 pensamentos sobre “Não é preciso inventar

  1. Obrigado pelo artigo, da sua autoria, que acabo de ler.
    Sou do Continente -Alto-Douro/Transmontano mas os meus dois filhos têm Mãe Açoriana, da Terceira/Angra do Heroísmo.
    Respeitosos cumprimentos e …
    Continue..

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    1. Eu é que lhe agradeço o comentário e a visita ao meu blogue. Aquela foi a única vez que passei o Natal em Trás-os-Montes, mas nunca mais me esqueci. Abraço.

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