A angústia do saco de plástico

Comecei a fazer reciclagem quando os meus filhos entraram para o colégio, não fossem falar no assunto e eu passar a minha vergonha. Apesar disso, nessa altura – e não foi assim há tanto tempo – ainda não me sentia o criminoso que sou hoje, sempre que deito uma garrafa de plástico para o lixo, uma fralda ou uso um daqueles sacos transparentes existentes nos supermercados na secção da fruta e dos legumes. Isto para não falar do estado em que fico de cada vez que vou à bomba de gasolina…

Dia após dia atento contra a vida do meu Planeta.

Procurei ajuda. Vejo documentários nas plataformas de streaming, sigo blogues, ouço podcasts e estou atento a tudo quanto me possa dar pistas na persecução deste nobre objetivo da vida moderna.

Há dias, num dos programas informativos da televisão pública, aparecia uma jovem, com luvas de borracha e enxadinha na mão, a tratar do seu jardim/horta, dando testemunho do seu esforço e da grande mudança efetuada na sua vida para atingir a meta do desperdício zero e salvar a Terra.

Simpatizei com a atitude da senhora. Não tinha um discurso fundamentalista, nem sequer uma postura de superioridade moral na abordagem do tema. A linguagem era simples e os conselhos passíveis de serem colocados em prática, embora alguns deles só possibilitados se tivéssemos supermercados ou mercearias próximas da perfeição, vendendo tudo e qualquer coisa a retalho, incluindo os líquidos.

Nem os mercados biológicos fazem isso. Antes pelo contrário. Por vezes parece ter mais produtos ensacados em plástico do que frutas e legumes. Adiante…

Contudo, a minha empatia com a jovem senhora sofreu um duro golpe quando resolveu fazer e beber um chá. Não a vi aquecer a água, mas reparei que a tisana era feita com saqueta de ir para o lixo. Provavelmente não terá acesso a chá em folha. É uma possibilidade. Também não terá acesso à mercearia de bairro perfeita, digo eu.

De seguida, na imagem transmitida pela televisão, a jovem aparece a beber o chá a partir de um frasco daqueles de café de cevada. Percebo a ideia. Mas a atriz e bloguer estava em casa e questiono-me: não haveria por ali um copo ou uma chávena? Qual a necessidade de, na sua cozinha, ter que recorrer a um objeto daqueles? Será preocupação ambiental? Ou já estamos no campo do exibicionismo?

Mas não é esse o caminho que pretendo seguir neste texto e, muito menos, o do “faz o que eu digo, não faças o que o faço”. Hoje, o que quero partilhar convosco é esta espécie de impotência perante os factos conhecidos.

Todos temos que contribuir para a redução dos plásticos, das embalagens ou da dependência dos combustíveis fósseis. Mas como?

Se eu quiser beber água em condições não tenho outra forma de o fazer sem ser recorrendo à compra de água engarrafada em plástico. Onde trabalho, o seu sabor é impossível. Onde vivo, as dúvidas quanto à sua qualidade são muitas.

Se eu quiser reduzir as embalagens, não tenho como comprar leite sem que, no fim, me sobrem um monte de caixas plastificadas que não terão outro destino que não a reciclagem. Isso já para não falar de toda a panóplia de produtos em que não existe alternativa.

E se pretendendo reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, seria de bom tom trocar de carro. Pena é que o preço dos veículos elétricos só estejam ao alcance de algumas bolsas. Podia andar de bicicleta, é certo, mas não tenho um emprego daqueles de ficar sentado a uma secretária todo o dia.

Quero fazer parte da solução. Quero ser um agente ativo neste processo começando em minha casa. Mas como?

Não se estará a exigir demais dos cidadãos para camuflar a falta de ações concretas dos poderes públicos?

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