O novo democrata

Os novos democratas têm entre si em comum aquela característica peculiar que consiste no facto de andarem constantemente com a sensibilidade à flor da pele.

São gente sensível, preocupada com o detalhe, avessa à futilidade e ao espetáculo público gratuito. Ofendem-se com relativa facilidade, muitas vezes com razão, até porque nem sempre o ângulo da fotografia foi o mais favorável, o resultado do Photoshop nem sempre o mais bem conseguido ou, ofensa das ofensas, as pessoas não tiveram a capacidade de apreender a mensagem, tão simples, tão fácil e infantilizada como, de resto, o são na sua maioria.

O novo democrata baba-se e pela-se por uma fotografia, de preferência na versão selfie, ao bom estilo Marcelo, sempre que vê ou está ao lado de uma figura pública ou um qualquer famoso de pacotilha televisiva. Aspira a ser como ele. Sonha em ser mais do que é. Tem ambição e isso é bonito. Quer ir ao Programa da Cristina, mas tem de se contentar com o programa do Sidónio ou o seu equivalente local.

Boris Jonhson é tido como sendo um homem culto. Hoje, dia em que esta crónica é publicada, realizam-se as eleições gerais no Reino Unido. O seu resultado irá determinar o futuro das terras de Sua Majestade e da Europa. Muita coisa está jogo.

Por um lado, a “simples” questão do BREXIT. Haverá novo referendo, não haverá? A haver, será nos mesmos moldes que o anterior – Boris diz que não – ou incidirá sobre este novo acordo alcançado entre o Governo de Johnson e a União Europeia? A ser, os resultados, mais uma vez, são imprevisíveis.

Por outro lado, há a Escócia e a Irlanda do Norte e o acordo de Sexta-feira Santa. As eleições de hoje podem determinar o fim do Reino Unido tal qual o conhecemos. Não, não será hoje que ficará estraçalhado, mas pode ser a partir desta quinta-feira, 12 de dezembro de 2019, que a desintegração comece.

Dependendo dos resultados, a Escócia exigirá novo referendo à sua independência. Aliás, já o pediu, mas, consoante os sinais dados pelo eleitorado escocês, esta exigência pode cair por terra ou, por outro lado, ganhar nova pujança.

Quanto à Irlanda do Norte, a situação é bem mais complexa, não se tratando de uma independência pura e dura como no caso escocês, mas sim uma unificação das duas Irlandas – que não deixa der ser uma independência – para evitar o renascer de um conflito violento que foi durante décadas a imagem de marca daquela fronteira entre dois países civilizados europeus.

Tudo está em aberto e as consequências para nós, embora vivamos perdidos no meio do oceano, e precisamente por isso, não se farão nem esperar nem anunciar.

Posto isto,

o novo democrata é um ofendido por natureza e tem orgulho em ser detentor da razão. Tem sempre razão, mesmo nas asneiras que faz. Talvez por isso, tenha dificuldade em enfrentar os seus críticos nos olhos, preferindo tratá-los como se eles, os críticos, é que fossem os responsáveis pelas trapalhadas, pelas ditas asneiras e pelas falhas.

O novo democrata ainda não percebeu. Os novos democratas ainda não perceberam que a crítica faz parte do sistema democrático e que a sua ausência não é sinónimo de perfeição dos novos democratas. Antes pelo contrário, é sinal de “já nem vale a pena dizer nada” ou, pior, não são assim tão democratas…

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