A terra tremeu, já lá vão 40 anos.

Só me recordo de ver a Paula correr esbaforida na nossa direção e a chamar por nós. Instantes antes, havíamos sentido o chão fugir-nos debaixo dos pés numa espécie de tontura que não sabíamos explicar.

“Depressa para casa!”

Sem perceber a razão, fomos a correr atrás dela naquele nosso miudinho passo de criança que nem os nove anos de idade ainda havia completado.

“Mexam-se!”

Obrigou-nos a subir a extensa e íngreme escada que atravessa, por entre a mata, a encosta da Serra de Santiago voltada para a pista de aviação e que faz a ligação entre o Bairro de Sargentos e o Bairro de Oficiais da Base Aérea n.º 4, vulgarmente conhecida como “das Lajes”.

Conhecíamos bem o caminho, foi o que nos valeu, era por ali que, todas as manhãs, todas as horas de almoço e todos os finais de aulas, íamos e vínhamos da escola, eu para a sala da Dona Isabel, o Xana para a sala da Dona Lurdes, e o regresso, sempre, para o Largo do Cinema Azória, entretanto demolido.

Naquela tarde, com aquela pressa e a aflição da Paula, nem nos deu tempo para pensarmos o que o Homem da Mata estaria a fazer ou a preparar-se para fazer. Esse Homem da Mata que nos atormentava o sono e alimentava os nossos medos.

As pessoas estavam todas na rua. Algumas desgrenhadas do cabelo, outras ainda de pijama, pois só com o violento safanão da cama, o estrondo de portas a bater e as ameaças do tilintar dos vidros e o ranger das paredes, haviam despertado do sono tardio e regado da festa de passagem-de-ano da noite anterior.

Eram vinte para as quatro nos Açores quando a terra estremeceu.

1 de janeiro de 1980.

Quarenta anos passados. Quarenta anos bem presentes.

Sem saber como nem porquê, as minhas rotinas de férias de Natal acabavam naquele dia. O meu pai, sargento da Força Aérea que pertencia à tripulação dos PUMAS, os helicópteros que haviam chegado às Lajes poucos anos antes, foi chamado de urgência, ficando eu sem o ver durante dias. Vim a saber mais tarde que andou pelas fajãs de São Jorge, muitas delas, à época, sem outro tipo de acesso que não fosse o ar ou o mar, a resgatar pessoas e levando-as para a Vila das Velas ou para a Terceira, frequentemente a caminho do hospital.

De quando em vez, uma réplica, um novo sobressalto, mas a vida foi continuando. Um dia, recordo-me, fomos ver o sismo. Era assim que dizíamos. “Ver o sismo”.

Passadas que são quatro décadas, o sismo de 1980 ainda não partiu. Por toda a ilha Terceira ainda sobram muitas ruínas que ficaram desse tempo, casas abandonadas que perderam a vida de quem partiu. No centro da cidade de Angra, as marcas perduram e muitos edifícios continuam por recuperar.

O sismo dividiu a história da Terceira em duas partes. Para os da minha geração e para os mais velhos, existe um antes e um depois. O tempo tem o dia 1 de janeiro de 1980 como marco de referência.

Na memória ficaram-me algumas imagens. Hoje acho que não terei visto o essencial. Tenho pena disso, mas a minha ingenuidade de menino de oito anos reteve pequenas coisas como o ver numa janela sem paredes, mas com os vidros intactos, aquela decoração de Natal tão típica há alguns anos nesta ilha. Uma fita brilhante colorida a suportar uma bola de Natal que, pendura bem ao meio, ficava em forma de “V”, lembrando que a tragédia nos visitou em época de festa e que o Novo Ano não seria de celebração.

Dias mais tarde, regressámos à escola e a professora pediu-nos para fazer um desenho sobre as férias, talvez a tentar aliviar-nos do peso da tragédia e a procurar que encarássemos o dia-a-dia com normalidade.

Correu-lhe mal.

No meu caderno diário, que tenho hoje pena de se ter extraviado algures nestes quarenta anos por entre mudanças de casa e limpezas apressadas, desenhei a igreja das Lajes com a sua torre caída. Não sei porquê, mas pintei as suas negras cantarias de amarelo.

Havia que encontrar alegria em algum sítio, era urgente colorir a tristeza.

Esta crónica foi emitida, durante este fim-de-semana, no programa “Voz dos Açores” transmitido pelas rádios radioportugalusa.com, radiolusalandia.com, radiotvartesia.com, radiovozdosacores.com, radioazorescanada.com, radiopamaclassic e radioilheu.

Um pensamento sobre “A terra tremeu, já lá vão 40 anos.

  1. Faz hoje 40 anos que passei noites sem dormir, chorando longe dos meus sem saber se estavam todos bem, sem saber o tamanho do grande desastre…chorava pela nossa menina que só tinha 8 meses, linda a nossa primeira sobrinha. Só pensava que não tinha o seu quartinho de cama, foi horrível…não posso imaginar o tão grande susto para todo o nosso povo da ilha, principalmente os Lajenses. Que Deus nos proteja de todos os perigos da natureza, e não só…bem haja Um Bom ano 2020. Bjs

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