Estórias por contar.

Quando a tua mãe se chama Anete, uma explosão de perguntas atinge-te o cérebro na tentativa de encontrar uma resposta para as dúvidas. Não conheces mais ninguém com esse nome e os teus amigos surpreendem-se quando o pronuncias. De onde vem? Ainda se fosse um daqueles ao estilo graciosense ou brasileiro, vá lá, havia sido um mau momento dos meus avós ou alguma quebra de tensão do meu avô no instante em que transmitia ao senhor do registo civil a sua vontade, o que, aliás, aconteceu a quando da escolha do segundo nome que, de não fazer qualquer sentido o conjunto, me abstenho de o pronunciar.

Vem isto no seguimento de um texto publicado nas redes sociais pelo meu amigo Luís Bettencourt (o pai da Maria) onde, a propósito da marcha 2020 da FUP (Filarmónica União Praiense), ele aborda o episódio histórico da chegada dos ingleses à ilha Terceira, o tema da marcha, relatando uma versão daquilo que terá sido a vida “sentimental” dos soldados da Royal Air Force por estas paragens.

Será uma estória. Mas tantas outras existirão, que ainda não foram contadas e provavelmente nunca o serão. Dada a distância temporal, muitos dos seus protagonistas já não estão vivos e os que a viveram diretamente estarão na casa dos oitenta, noventa anos, alguns deles com dificuldade em comunicar e a memória toldada. Sobrevivem por via indireta, os relatos, por aqueles que as ouviram ser contadas, nem sempre com o rigor histórico desejável, e contaminadas pela experiência, os relatos cruzados ou a sua idealização romântica daqueles tempos.

Uma das irmãs mais velhas da minha avó era costureira. Melhor dizendo, alfaiate, uma vez que o seu trabalho consistia em fazer e arranjar calças de homem, um trabalho especializado que não estaria ao alcance de qualquer agulha. Vivia nas Bugias, numa daquelas casas que viriam a ser demolidas para dar lugar ao que hoje é o campo de aviação, enquanto os seus ocupantes assistiam à missa para que não fossem sujeitos a tamanha provação.

O marido trabalhava para os ingleses e fazia de ponte entre o quartel e a costura. Com as calças e a roupa para lavar, vinham também revistas e jornais, escritas em inglês, fazendo as delícias das raparigas que, não entendo uma única palavra, fosse por não conhecer a língua ou por não saber ler, acompanhavam, só pelas fotografias, a vida da realeza britânica, do rei Jorge VI, da rainha Isabel (a mãe) e das princesas Isabel e Margarida, a dos olhos azuis vibrantes, infeliz, bonita, que não casou com quem queria, mas que era um símbolo de uma vontade proibida.

Nos dizeres da minha avó, a princesa Margarida penou bastante. O que aquela infeliz sofreu. Triste destino teve. Pior, só mesmo a princesa Soraia, a dos olhos tristes, casada que foi com o Xá da Pérsia. Longe estariam as nossas jovens sonhadoras de saber que, pelo caminho e nas gerações seguintes, outras Margaridas e Soraias povoariam o imaginário da indignação real. Lady Di para as filhas, Meghan Markle para as netas. Como são bons em marketing estes Windsor… fazem questão de sempre arranjar uma jovem princesa indignada e disposta a cortar amarras. Nem à Disney lhes lembraria tal enredo.

Os militares britânicos que chegavam à ilha vinham sozinhos, sem família. Para trás, na longínqua e livre Inglaterra, nos dizeres de Salazar, ficavam os pais, as namoradas, os irmãos, as mulheres ou os filhos, se fosse esse o caso. Apesar da barreira linguística, esses homens acabavam por se ir entendendo com os locais. Gestos, meias palavras, um intérprete pelo meio que pouco mais sabia do que what´s your name, e a aproximação acontecia.

Um desses homens deixara na velha Albión uma filha. Chamava-se Anete.

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