Piquenique no paul.

Poucos serão os praienses que conhecem o paul da Praia. Saberão que tem água, aves “raras” e mosquitos, um parque infantil e um recinto onde se montam e desmontam as barracas para feiras várias e a tenda de cristal nas festas do concelho.

No passado domingo, aproveitando o bom tempo, cedo saí de casa com a família para fazermos aquilo a que chamamos um piquenique de papa (apesar da refeição já não ser essa, foi assim que lhe começámos a chamar e assim ficou batizado).

Na cesta, levávamos as caixas de três ou quatro variedades diferentes de cereais, um pacote de leite Milhafre, duas tigelas reutilizáveis, duas colheres metálicas e uma manta. Desde que fomos com os nossos filhos ao restaurante dos cereais no Bairro Alto, em Lisboa, os nossos pequenos-almoços nunca mais foram os mesmos. Nunca mais foi possível servir flocos de uma só qualidade e cor.

Destino: paul.

Não sei se ali é permitido fazerem-se piqueniques. Na longa lista de proibições, pelo menos, não consta.

Depois de estacionarmos o carro, naquele pedaço de asfalto que só serve para, nas festas, se montarem as barracas de cachorros e caipirinhas, percorremos o caminho que nos levaria às árvores onde, por debaixo das suas copas agora sem folhas, assentaríamos arraial.

O caminho fez-se a passo lento, observando e desfrutando daquele tesouro ambiental. Não se compreende, no entanto, a razão da existência, durante todo o ano, dos tapumes provisórios, mas permanentes, das chapas metálicas verdes que delimitam o recinto de alcatrão onde se armam as barracas. Não percebo. Sinceramente não percebo porque se mantém num parque ambiental com a qualidade que este tem uma espécie de estaleiro abandonado tão ao estilo das áreas industriais abandonadas e decadentes. Como já o tenho referido, a Praia não pode viver em função de uma semana em cinquenta e duas. Já seria altura de fazer daquele recinto de asfalto algo que possibilitaria a sua utilização durante todo o ano, mesmo sem inviabilizar a realização das festas. Sugestões não têm faltado. Lembram-se dos tais fóruns?!

Passámos pelas máquinas destinadas ao exercício físico, atravessámos a ponte em madeira e aventurámo-nos pelo bosque alcatifado de trevos e das amarelas flores da erva-azeda. Estava tudo molhado. Não era possível estender a manta. “Ali ao fundo tem uma casa de madeira!” disse o Jorge. “No outro dia estivemos lá.” De cesta às costas, fomos até ao posto de observação de aves. Espreitámos pelas vigias, vimos os pássaros. Vimos uma montanha ao longe e um lago.

O Jardim das Aromáticas fica ali mesmo ao lado. No silêncio, calmamente apreciámos os canteiros. Colhemos uma ou duas folhas e desfrutámos da intensidade dos odores. Alecrim, tomilho, salva-ananás, louro, cidreira, alfazema, arruda. “Uma senhora disse que as plantas picavam.” “Quem é que disse?” “Foi no outro dia quando viemos no colégio.”

Saímos dali e dirigimo-nos à pérgula habitualmente deserta. Estendemos a manta, na fronteira entre a sombra e o sol, por forma a que os quatro convivas pudessem ter uma opção. Serviu-se o pequeno-almoço que, fora de casa, e num ambiente verdejante, tem sempre outro sabor. Daqui por alguns meses, segundo tive oportunidade de saber, por esta zona será instalado um parque infantil com condições para receber crianças com idades superiores às que frequentam o outro. Ainda bem! Estava a ser preciso.

O parque ambiental do paul é um local por conhecer. Os praienses ainda não o entendem como sendo um espaço seu, para seu usufruto e prazer. Talvez falte dinamizá-lo. Criarem-se eventos periódicos, ao sábado ou domingo de manhã, que tenham a capacidade de atrair gente. Quem sabe, um mercadinho de produtos locais. Não necessariamente artesanato ou exclusivamente artesanato, mas um mercadinho onde os pequenos produtores possam mostrar o que têm para vender. Lembram-se da venda dos Açores da feira de gastronomia…?
Seria importante instalar-se um posto onde se possa tomar um café ou beber uma água. É verdade que existe o mercado biológico. Contudo, a lógica da sua construção faz com que esteja no paul, mas que ninguém se aperceba disso. Para o mercado biológico, sugiro outra solução. Que se ceda um espaço no mercado municipal ou, em alternativa, o espaço que agora é ocupado pelo secretariado das festas. Teria de estar aberto todos os dias. Todo o dia. Mas estaria na cidade, a ajudar a cidade.

Se me permitem, deixo-vos uma sugestão para os dias de bom tempo. Levem os vossos filhos ao paul. Levem a cesta e a manta e desfrutem. Desfrutem do que de bom temos, apesar de não lhes darmos valor.

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