Eutanásia e tauromaquia, não tem nada a ver.

Dos argumentos primários aos dogmas que, por o serem, ninguém julga virem a ser contestados. É nesta base de aparência naïf que se faz a defesa daquilo que não se quer seja mudado. Como sempre assim foi, sempre assim terá de ser. Não haverá, então, motivo nenhum para que se altere a ordem estabelecida. Para quê contestar? Por que razão haveria de ser diferente?

Tem sido recorrente esta forma de estar e de pensar. O que é preocupante. Contudo, para quem está do lado da vontade de mudar, a atitude é substancialmente diferente. Isto no caso dos movimentos da sociedade que pretendem mudanças naquelas áreas a que habitualmente de achou designar de fraturantes. Vejam-se os casos do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da recente aprovação da despenalização da eutanásia em casos muito específicos e, os sinais aí estão, do regresso à discussão sobre o fim das touradas. Aliás, veja-se, a este propósito, a cedência de alguns deputados na questão do IVA. Uma prova de como é fácil, convictos taurinos, cederem. É um pequeno passo. Mas é de pequenos passos que se faz uma maratona.

Este tipo de discussão tem resvalado, com frequência, para algo semelhante a um jogo de futebol. De um lado, nós. Do outro, eles. À volta, as claques para quem não importa a verdade, o que interessa é ganhar.

Em temas desta natureza, não faz sentido transformar o debate na dicotomia esquerda-direita mesmo sem que se saiba ao certo o significado desta simplificação ideológica. Aliás, a avaliar pela votação, no caso concreto da eutanásia, dificilmente encontraremos um padrão que defina a geometria parlamentar. O mesmo se aplicando ao argumento religioso já que, não é linear a correspondência direta entre religião e partidos políticos. Basta para isso ver o que defendem as lideranças parlamentares e as suas convicções religiosas que, no caso específico de José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, como o próprio assume, não se limita a ser um católico de ocasião.

Na véspera da votação das propostas para despenalização da eutanásia, em conversa de café, dizia-me uma amiga, “eles preparam-se bem!”. Não falávamos só da morte assistida, mas da forma como os movimentos pró e anti qualquer coisa se comportam. A conclusão foi essa, quem pretende mudar o que quer que seja tem de se preparar convenientemente, tem de estudar os dossiers, tem de se concentrar no que é essencial e não ficar à espera da fraqueza dos outros.

Quando entrei para a política ativa, ouvia frequentemente os que lá estavam há mais tempo dizerem que “as eleições não se ganham, as eleições perdem-se!”. Sempre me fez confusão este tipo de raciocínio e, talvez por isso, aqueles que alegadamente procuram ou defendem a mudança se abstenham de se apresentar como tal, limitando-se a fazerem presenças.

A próxima luta dita fraturante será a das touradas. Tivemos o IVA e, há poucos dias, o caso dos galgos de Monforte que, embora não tendo relação direta com a tauromaquia, os cães são sempre apresentados como sendo propriedade de um cavaleiro tauromáquico. Não de um cidadão qualquer.

Os taurinos deverão preparar-se para o que aí vem e terem consciência de que quem, em casa, por esse país fora, não percebe do assunto vai fazer muitas perguntas, algumas simples, mas que exigem respostas também elas simples, diretas, numa linguagem que todos entendam e sem demagogia. Não se pode combater demagogia com mais demagogia. O resultado, normalmente, cairá para o primeiro. São peritos nisso.

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