Ouvir, sim, mas sem máscaras.

Com cada vez maior frequência, começam a cair nas caixas de correio eletrónico convites digitais para se assistir a conferências e seminários partidários, travestidos de movimentos de cidadania.

As temáticas, essas, são as do momento, aquelas que interessam a todos nós, tendo como base os estudos das agências de comunicação que sabem, com o rigor da milésima percentagem estatística, o que aos incautos cidadãos eleitores preocupa.

Às sondagens de opinião, no entanto, escapa a escolha dos oradores, pretensos especialistas das matérias em causa, mas que não passam, na grande maioria dos casos, de agentes políticos que, não bastas vezes, percebem tanto da poda, ou menos, que a esmagadora maioria dos potenciais assistentes.

Mais do que se discutirem e debaterem os verdadeiros problemas que afetam os Açores e os açorianos – até porque essa é matéria que não interessa aos promotores destes eventos – estes encontros de cidadãos, supostamente independentes e sem quaisquer ligações às estruturas governativa e partidária, servem para evangelizar e justificar deficiências e falhanços na gestão do nosso destino coletivo.

Mais gravoso é o facto de essas ações de campanha usarem instituições tidas como apartidárias e de interesse público como veículos de propaganda, uma evidência de que a instrumentalização da sociedade por parte do poder e dos partidos políticos é um objetivo e uma realidade açoriana que não podemos continuar a negar.

É o lobo com pele de ovelha, onde os símbolos partidários desaparecem para darem lugar a slogans que ficam no ouvido, de aparência inofensiva, que contradizem a realidade, mas que rapidamente caem no descrédito por amplamente divulgados e disseminados nas redes sociais, não pelo eleitor a quem se destinam, mas pelos agentes habituais, responsáveis partidários u os assalariados do sistema de gaiola dourada de onde, mesmo aprisionados e queixando-se, não querem sair, fazendo tudo, mesmo tudo, para aí se manterem.

A justificação é a de sempre: abrir os partidos à sociedade civil, dar espaço aos independentes. Acrescento: para os tornar dependentes!

Esta abertura é meritória. Seria meritória, não fosse o tempo e o modo em que é feita. O objetivo deste género de ações, pelo menos no papel, é ouvirem-se as pessoas, o cidadão comum, as suas preocupações, os seus anseios e sugestões. Na verdade, não é possível governar sem que se faça uma auscultação sistemática das populações. Com efeito, em teoria, são as pessoas o centro da ação política, é para elas que se governa, é a partir delas que o poder é legitimado.

O que não se entende é o facto de, só a poucos meses das eleições, a liberdade de expressão e a vontade dos cidadãos passem a constituir a espinha dorsal do sistema quando, nos restantes três anos da legislatura, a punição é forte para quem critica ou simplesmente se afoita a apresentar alguma alternativa.

De agora em diante, até que os programas eleitorais e as listas estejam fechados, este género de iniciativas vai multiplicar-se nos diversos matizes do espectro político regional. Em comum terão a mediatização, as frases sonantes e a pretensão de independência ideológica que mais não é do que o reflexo da sua ausência. As cores aparecerão disfarçadas e os símbolos escondidos. Isto não é transparência. Não constitui verdade. É ter vergonha de si próprios.

Ouvir, sim, mas sem máscaras.

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