Ironicamente, cantamos os parabéns.

A sensação é a mesma de quando a Proteção Civil emite um alerta vermelho, recomenda os cuidados habituais, está prevista a passagem de um furacão vindo do Golfo do México, mas ficamos à espera que a rota da tempestade se altere à última da hora e, mais uma vez, foi só um susto, um exagero das autoridades, e ficámos a salvo, satisfeitos por mais um dia em que o tempo até esteve bom e que até deu para irmos à praia ou fazer as compras adiadas.

Desta vez, porém, ao segundo dia de notícias e informações vindas um pouco de todo o lado, de toda a forma e ao gosto de cada um, com as interpretações mais ou menos sérias e as teorias da conspiração costumeiras nestas ocasiões, percebemos que não haverá queda de árvores, não haverão desalojados e, ao contrário das outras vezes, as escolas ficarão fechadas mais do que um dia, sem se saber muito bem até quando, sem podermos deixar os nossos filhos no ATL e que não é aconselhável deixá-los com os avós porque podem infetá-los, aos avós.

Cai-nos a ficha e, de um momento para o outro, entramos num daqueles filmes de ficção científica que teremos visto algures numa sala de cinema, na televisão ou numa das plataformas de streaming. Não queremos acreditar. Não queremos pensar que um dia aquelas imagens e histórias fictícias e impossíveis se estão a materializar à nossa frente e nós a fazermos parte delas. Somos um dos milhões de figurantes deste filme que jamais pensámos viver um dia. Desconhecemos o guião e isso assusta-nos. Sim, assusta-nos.

Assusta-nos a ideia de não termos controlo sobre o inimigo invisível, mas real. Assustam-nos os nossos atos, um espirro que seja, uma tosse vulgar ou um simples aconchego táctil ou manifestação de afeto. Desconfiamos dos outros e julgamos com a facilidade de quem está desesperado e espera que uma solução milagrosa chegue de qualquer lado.

Temos medo de sair de casa e de enfrentar o mundo desconhecido que, até há poucos dias, o julgávamos conhecer como a palma das nossas mãos que agora são o nosso maior inimigo. Lavamo-las com vigor. Lavamo-las com força. Lavamo-las com raiva e muito medo. Cantamos os parabéns. Irónico este mundo…

Da primeira vez em que tive de atravessar o portão do meu pátio e pisar a rua, depois de iniciar o isolamento social, olhei a pequena canada deserta e veio-me à memória o episódio em que a mulher do médico do “Ensaio Sobre a Cegueira” de Saramago, a única que via, saiu da quarentena imposta pelas autoridades, e, liderando um grupo de cegos, enfrentou um mundo que, sendo o dela, desconhecia. Não sabia o que a esperava. Tive mais sorte.

Hoje, o Dia do Pai será diferente. Os trabalhos que os miúdos costumam preparar na sala de aula ficaram na escola por acabar e os presentes habituais deste dia, nas prateleiras das lojas. Podia agora falar do materialismo, do consumismo, do egoísmo, da globalização e da lição que esta pandemia nos vem dar. Recuso-me a dar para esse peditório. Seria como assumir que esta calamidade foi um castigo pelos pecados do Homem e da Mulher.

Já não estamos na Idade Média…

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