Nem Pilatos, nem a Coroa de Espinhos.

Nem ceia, nem lava-pés, nem beijo da paz. Resta-nos a abstinência, a rejeição da carne, em dia de Sexta-feira Santa, e esperar pela Páscoa. Esta ou qualquer outra. Pelo dia em que, nas nossas vidas, reencontraremos a Luz. Chegará, disso não tenho dúvidas.

As igrejas estarão vazias de fiéis. Os sacerdotes, solitários, presidirão às celebrações. Em casa, para quem quiser assistir, as novas tecnologias darão o seu contributo. Esta será seguramente uma celebração Pascal diferente. Já Domingo de Ramos o foi e o adiamento do Espírito Santo confirma um tempo de exceção.

Não haverá procissões. Nem o Senhor Morto, nem o Senhor dos Passos, nem chocalhadas, nem o beijar da Cruz, nem as dramatizações do Evangelho de São Mateus. Nem Judas, nem Barrabás, nem Pilatos, nem a Coroa de Espinhos. Nem mesmo por trinta dinheiros.

Já por três vezes tive o privilégio de assistir a cerimónias religiosas na Praça de São Pedro, no Vaticano. A primeira delas, a primeira vez que estive em Itália, na companhia da minha irmã, João Paulo II beatificava Alexandrina de Balazar, portuguesa, numa cerimónia em português, com bandeiras verde-rubras a esvoaçarem por todo o recinto. Comovente ouvir a nossa língua cantada e rezada por uma multidão, ainda por cima longe casa.

Da segunda vez, acompanhado pelos meus pais, João Paulo II já estava hospitalizado e a bênção foi transmitida, via vídeo, do hospital onde se encontrava para a Praça. Junto à Basílica, os que esperavam pelas suas palavras, tiveram de se contentar com a sua imagem debilitada que aparecia nos ecrãs. Longe estávamos nós de imaginar que a comunicação por essa via seria, anos mais tarde, a única forma de nos podermos ver uns aos outros, matar saudades e partilhar afetos. Um silêncio sepulcral, mesmo quando, instantes anteriores, milhares de pessoas falavam e riam e conviviam alegremente.

Da última vez, com a Márcia, meses depois de termos perdido o nosso primeiro filho, assistimos à missa e à bênção de Ano Novo pelo Papa Francisco. Um de janeiro de 2014. Recordo-me de que levámos a nossa bandeira até Itália. É impossível deixarmos de pensar na nossa casa onde quer que estejamos. Queríamos reconquistar a esperança. Dias depois, seguimos para Assis numa viagem não programada, numa viagem onde se fechou um ciclo e em que a minha forma de pensar e estar perante a vida e o mundo mudaria para sempre.

Regressados aos Açores, fomos despedidos. Nesse ano nasceu o Jorge.

Ver, por isso, o Papa Francisco celebrar missa em San Pietro, numa praça vazia, não me deixou indiferente, mesmo não sendo eu o mais disciplinado dos crentes, mesmo não sendo eu um cumpridor das regras estabelecidas. Embora sozinho, aquele homem vestido de branco não estava só. Um mundo inteiro, independentemente da dimensão religiosa, estava com ele e percebeu a mensagem.

Vinda de Itália, de uma praça habituada a multidões e celebrações, de um povo que gosta de se abraçar e beijar, de se reunir à volta de uma mesa e comer e festejar, de um povo como nós, quente nos afetos, esta mensagem assume outra abrangência. No meio da tragédia, há esperança. Não estamos sozinhos…

Para os crentes, haverá sempre a Fé que os faz acreditar que há uma força maior que olhará por eles, que os guiará e os salvará. Para os não crentes, haverá sempre o Próximo, o amigo, o vizinho, a família, a comunidade e a vontade individual de vencer mais este desafio.

Não podemos dar nada por certo ou garantido nas nossas vidas. Aprendi-o da pior forma. Mas as nossas vidas continuam e com elas a nossa vontade de sermos melhores seres humanos enquanto indivíduos, enquanto família, enquanto comunidade.

Felizmente, nesta era digital, é possível, mesmo isolados, estar em contacto com o mundo. A tecnologia de hoje permite-nos ver uns aos outros, conversar, estar em presença. Falta o calor do afeto, é certo. Os beijos. Aquele abraço apertado bem juntinho ao coração. Mas não falta tudo. E isso é bom!

A todos quantos me ouvem e leem, faço votos que tenham uma Santa Páscoa na companhia de quem for possível estarem, mesmo que seja por telefone ou videochamada. Façamos nós a nossa a parte.

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