Faz o que eu digo…

Encontraram-se ao Cruzeiro. Os dois. O Gabriel, pedalando a custo, encurvado na bicicleta como que debruçado sobre o guiador, vinha do lado do aeroporto. Cabelo grisalho, lambido sobre o cocuruto, bigode farto escondendo a boca e o corpo esquelético, em esforço, mascarado pelas calças castanhas gastas entrepernas, amarradas à cintura por cordel de sisal fazendo as vezes do cinto. Imaculada, acabada de passar, trazia uma camisa azul clara, com colarinho, resquícios dos tempos em que trabalhara na Base. Não trazia agasalho. O dia tinha-se feito bom depois de tantos de chuva miudinha, céu de chumbo e ventinho norte que pouco mais davam para fazer do que andar pelo quintal por curtos momentos e assistir às intermináveis discussões na CMTV sobre o vírus, as doenças e os mortos. Tantos… lá fora!

O João Luís acabara de virar à direita sem fazer o STOP. Vinha de cima, da rua Padre Lino, conduzindo o seu novo SUV elétrico, preto acabado de lavar, obrigando-se a parar logo de seguida porque a roda do carro embateu violentamente no passeio defronte da Sociedade Nova que é alto e esconde uma sarjeta funda. Estava atrasado. A mulher apercebera-se que não tinha curgetes em quantidade suficiente para engrossar a sopa do jantar e, à última hora, havia que ir às compras. Aproveita e compra também uma lata de atum que a que compraste ontem foi para o almoço.

Saiu do carro a praguejar. Primeiro viram-se as sapatilhas em verde fluorescente, adivinhando-se que atrás viria a licra preta, farda de ir às compras e que habitualmente usa ao domingo de manhã quando vai com os amigos do serviço dar umas voltas de bicicleta. A licra tem um problema que, por estar a escrever num jornal, só posso dizer ser lixado. Tem a capacidade de revelar tudo. Mesmo com os músculos das pernas estarem bem torneados e definidos de tanto pedalar, aquele inchaço abdominal, descaído, é revelador de que, por muito passeio que dê com os amigos e por muita curgete que coma com atum, há ali alguma coisa que não está a funcionar. Dizem os sábios antigos que o que se faz de noite aparece de dia.

Os dois escritórios recentemente instalados na Sociedade Nova estavam fechados como seria de prever nesta altura de emergência sanitária. A Sociedade em si, também. O mesmo acontecendo com o clube da bola. No talho as luzes estavam acesas. O Gabriel vinha a chegar mesmo à frente do portão que dá acesso ao pátio de entrada do açougue quando viu o carro do filho ficar encalhado na sarjeta. Escondeu a cara para que não fosse visto e, apesar de já ter praticamente passado a entrada, deu uma volta rápida ao volante de maneira que parecesse ser aquele o seu destino e não o café a caminho da Vila Nova que, à socapa, vai atendendo um ou outro cliente. Era a desculpa que procurava. A guinada, no entanto, foi violenta e a força usada maior do que ele previra. A bicicleta ficou descontrolada e perdeu o equilíbrio. A queda foi aparatosa, ninguém se pisou. Mas uma sonora e vernacular interjeição de vergonha pareceu até acordar a Senhora de Fátima enclausurada no nicho, acompanhada por ramos de flores plásticas.

Isso aconteceu no preciso instante anterior àquele em que o João Luís, não fosse o estrondo do palavrão, ia reparar que o pneu se havia rasgado na aresta da pedra que faz o arremate do passeio e perceber que teria de desembolsar uma boa maquia extra de euros. De imediato, olhou para o outro lado da rua. Pai?!

De si para si Gabriel não perdeu a compostura nem saiu do registo linguístico. Mas agora o tom foi de lamento, murmurado. Acabara de ser caçado.

­- Pai, o que faz na rua? Eu já não lhe disse para ficar fechado em casa? O senhor ainda não percebeu que pode morrer? Já pensou nisso? Nos seus netos? Na mãe?

Encavacado, à pressa, Gabriel tinha de se desenvencilhar da situação e atirar o problema para o lado do adversário. E tu?… Também andas na rua!

– Pai, é sempre a mesma coisa. Tem de perceber que eu sou novo, tenho saúde, protejo-me e tenho outras precauções. Além disso, tenho de ir comprar comida para casa.

– E precisa ser todos os dias?

– Bem… o pai tem razão. Mas desta vez era mesmo urgente. Não tínhamos o que jantar e sabe como é a Inês, falta sempre qualquer coisa.

– Mas ainda hoje de manhã lá foste!

– É verdade, mas acabou-se a cerveja durante a tarde e o frasco de maionese para o atum está mesmo no fim.

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