No silêncio de um olhar.

Deixara de acreditar em Deus enquanto combatia na Guiné perdido e isolado no meio do mato. Deixara de acredita nos políticos, no exato momento em que os seus comparsas de trabalho foram promovidos, só porque pertenciam ao partido ou a ele passaram a pertencer assim que a astúcia e o oportunismo lhes revelaram não haver melhor elevador social e profissional que um simples cartão com um símbolo, um nome, mas sem fotografia.

Casou pela igreja. Batizou os filhos. Chegou a ser mordomo de Bodo nas festividades em louvor do Divino Espírito Santo quando ainda era rapaz, casado de fresco, e, esticando daqui e dali, ainda conseguia assumir as despesas. Ia todos os domingos à missa. Ficava sempre atrás, junto à porta de entrada, escondido da vista do padre por uma daquelas imponentes colunas em pedra de basalto. Fazia por comungar. Era a única forma de se afirmar perante os outros de que era um católico cumpridor dos ditames mínimos para que fosse aceite na congregação. Por vezes, falhava a solenidade do aceitar na sua boca, oferecida pelas mãos do sacerdote, a hóstia. Justificava, sem o pedirem, que falhara à confissão ou que cometera o pecado da gula ainda antes de sair de casa. Outras vezes, tivera uma urgência fisiológica que o obrigara a ir ao café mais próximo no exato momento em que o prior levantava a Deus o corpo e o sangue de Cristo. É mais fácil mudar de partido do que se assumir ateu, pensava.

A mulher nunca teve a menor desconfiança. Sempre o admirou por ser um grande devoto. Cumpridor. Até agora.

Estranhou o seu isolamento constante dentro do isolamento imposto. Andava acabrunhado. Rosto fechado. Sempre que evocava o nome de Deus para nos salvar desta maleita invisível, mas desgraçada, respondia-lhe bruscamente numa frieza desconhecida até ali.

Deixa-te dessas coisas! Se ele quisesse já tinha resolvido o problema há muito tempo. Não digas isso Gabriel. Ele castiga-te! Mais?! Castigo é isto. Que pecado homem! Pecado é acharmos que somos mais do que os outros e que o teu Deus só te vai salvar a ti. Nem digas uma coisa dessas. O que é que esses desgraçados desses velhos todos que vivem nesses lares à conta sabe-se lá de quem são menos que a gente? Diz-me! Para de dizer tolices. Diz-me o que é que nós os dois somos mais do que eles para merecermos viver e eles não. Oh Maria Adelaide, aquela gente também reza, também vai à missa, também faz promessas. Para quê? Para acabarem mortos numa cama de um hospital e nem sequer verem os filhos e os netos? Gabriel, temos que ter fé. Qual fé? Isso é coisa que já andou há muito ano…

Nenhum deles se recorda o imediatamente sucedido após esta fala. Dizem que terão ouvido ambos o silêncio. Lembram-se, ainda, de o Gabriel ter saído a barafustar. Ter saltado para a bicicleta e começado a pedalar com toda a força que a idade e o tempo permitiam. A sua mente fervilhava de emoções contraditórias, incluindo o arrependimento. Ao fim de tantos anos de intimidade e partilha, assumira perante a mãe dos seus filhos, a mulher a quem tanto queria e por quem tanto se sacrificara, que havia vivido todo aquele tempo numa farsa. A fazer de conta. Mais preocupado com a sua imagem perante os outros e o seu julgamento.

Havia que espairecer. Mudar de cenário. Mudar de audiência. Estar sozinho. Lembrou-se de uma tasca onde costumava ir sempre que a necessidade de sair do ambiente familiar se impunha. Ouvira dizer que, às escondidas, rompendo as regras da quarentena obrigatória, o dono do boteco atendia um ou outro cliente. Ficava no extremo oposto da vila. Era longe. O lugar ideal para só se encontrar a si.

Ao contrário do marido, a devoção de Maria Adelaide era genuína e levada muito a sério. Não que isso fosse um hábito ou um só porque sim. Para esta devota que não era beata, a vida só fazia sentido daquela forma, com aqueles rituais, entregue aos desígnios de Cristo. Assim que Gabriel saiu, retomou a sua lida doméstica de preparação do jantar. Num movimento natural de quem anda na cozinha à procura de um garfo ou de um tabuleiro de vidro, os olhos de Adelaide cruzaram-se com os da imagem de Nossa Senhora da Luz que estava num pequeno oratório em jacarandá que havia herdado da sua mãe. A lamparina de azeite permanecia acesa e os malmequeres amarelos mantinham a mesma frescura de quando, pela manhã, foram colhidos no canteiro antigo junto à porta da frente. Apesar do silêncio do olhar daquela escultura, Adelaide, surpreendida por si, ouviu uma só palavra: Não!

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