Um cravo para Joacine.

Parece absurdo, mas hoje é 30 de abril, dia da Liberdade. Sem cravos, sem Grândola à janela, sem discursos, sem decretos de intenções, sem apelos a uma sociedade livre, igualitária, onde o berço de nascimento ou a filiação partidária não sejam fator de destrinça. Uma sociedade onde prevaleça o mérito e onde ninguém é prejudicado ou preterido relativamente aos demais só por ter opinião contrária à tida como a correta, ou oficial, ou aprovada por uma qualquer maioria que só é validada quando dá jeito a quem argumenta. É a velha regra da maioria que só interessa se aquela for a maioria de que eu gosto.

Sim, hoje é 30 de abril, um dos 366 dias da liberdade neste atípico ano de 2020.

Não basta andar de cravo ao peito num único dia do ano. Não basta saber cantar o Grândola de uma ponta à outra, mas nem sequer saber o que se canta, nem que a vila existe mesmo, nem que é uma entre tantas outras do imenso Alentejo, injustiçadas no passado, esquecidas no presente. Não basta evocar Salgueiro Maia no credo e, em simultâneo, procurar a manutenção ou a conquista do poder a todo o custo, não compreendendo que “Salgueiro Maia” e “poder” não cabem na mesma frase.

No passado dia 25 de abril, as redes sociais encheram-se de liberdade. Louvaram a liberdade e incensaram-na de cravos, hinos, poesia e outras coisas que, aos olhos dos demais, preferencialmente seus pares e amos, mostrassem que somos verdadeiros revolucionários, defendemos os valores de abril e que exigimos… bem, não interessa o que exigimos. 25 de abril sempre! Mas qual 25 de abril? O de 1974? O de 1975? O de 1976? O de 2020? Já agora, seria importante que, ao colocar-se um cravo, o fizéssemos acompanhar por uma data. É que, consoante o ano, o seu significado assume tonalidades bastante diversas.

Irónica ou costumeiramente, nesse mesmo dia, as mesmas redes sociais foram profícuas em intolerância. Basta ver os comentários, a cada momento, que eram feitos às intervenções dos responsáveis políticos nacionais à medida que desfilavam na tribuna da Assembleia da República. João Cotrim de Figueiredo (IL), André Ventura (CH), Inês Sousa Leal (PAN), José Luís Ferreira (PEV), Telmo Correia (CDS), Jerónimo Sousa (PCP), Moisés Ferreira (BE), Rui Rio (PSD), Ana Catarina Mendes (PS), Ferro Rodrigues e Marcelo Rebelo de Sousa. Não vou comentar cada um deles, nem sequer o tom geral. Mas para quem pretenda fazer esse exercício, talvez fosse interessante, em vez de os ouvir, lê-los, mas sem saber quem lhes deu voz. Acreditem, talvez ficassem surpreendidos com o resultado. Experimentem!

Curiosamente, ainda as mesmas redes sociais, as mesmas que há poucos meses rasgavam as vestes por Joacine Katar Moreira e insultavam todos quantos não estavam do lado da então deputada do Livre, agora, nem se lembraram dela, nem tão pouco se preocuparam em saber ou comentar a razão da senhora não ter tido oportunidade de intervir. Saberão por que razão não interveio? Não, não foi por ser mulher, não foi por ser gaga, não foi por ter origem guineense. Joacine Katar Moreira não falou porque todos os outros, sim, todos os outros (BE, PCP, PEV, PS, PAN, PSD e CDS), à exceção do IL e do CH, foram contra. Não quiseram que ela falasse. 25 de abril, sempre! Mas que seja o de 1974 ou 76…

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