A responsabilidade não está de quarentena.

O regresso traz consigo uma certa sensação de normalidade. São retomadas algumas rotinas, reveem-se pessoas, voltamos a circular na rua sem o sentimento da culpa na transgressão. Tudo parece normal, mas não é.

O vírus não morreu. A doença por ele provocada não foi erradicada. Não existe um tratamento conhecido. Não foi descoberta uma vacina. Em países como Itália, Espanha, França, Reino Unido ou Estados Unidos continuam a morrer aos centos e o número de infetados não para de crescer. Estes são países do primeiro mundo. Ricos. Sim, ricos e com sistemas de saúde avançados, apetrechados com o que de melhor a ciência já desenvolveu e a indústria produziu.

Não estamos isolados do mundo. Apesar de, nos Açores, vivermos em ilhas que, por definição, são rodeadas de água por todos os lados, não vivemos isolados. Existem infetados nas ilhas. É facto. E, apesar de não se registarem contágios há vários dias, sabemos que isso nada significa e nem é sinónimo de que o vírus nos tenha deixado.

Ele anda por aí. Como? Onde? Estas são as grandes dúvidas e, por o serem, é que este “regresso” nada tem de normal e exige, da nossa parte, maior responsabilidade.

Desde o início desta pandemia que as autoridades de saúde insistem na máxima de que todos nós, individualmente, somos agentes de saúde pública. A partir de hoje, cada vez mais. A partir de hoje, todos estamos na primeira linha em contacto com pessoas que não sabemos estarem infetadas ou não. Nem as próprias sabem. Nem eu sei se estou, mesmo não tendo sintomas.

Este regresso à normalidade é, mais do que tudo, uma necessidade. A economia não pode estar parada por muito mais tempo. E é importante referir que economia não são só os grandes grupos económicos, os grandes empregadores, as grandes empresas das quais se diz faturarem milhões. Economia são as pequenas empresas a que, muitas vezes, nem lhe chamamos empresas e às quais nos limitamos a dizer que “trabalham por sua conta”. As pessoas que vivem só do que produzem ou vendem. Das que garantem nem que seja só o seu posto de trabalho.

A comunidade tem necessidade de voltar a dinamizar-se social e culturalmente. Aqui a situação é bem mais difícil. Dramática até. A normalidade nestas situações é quase sempre acompanhada de aglomeração de pessoas. Festas, concertos, teatro, cinema, feiras, exposições, casamentos, touradas, enfim, uma variedade de situações onde o distanciamento social é praticamente impossível de se garantir. Nestes casos, o problema não reside em fazerem-se ou não. Basta ter coragem para dizer não e assumir que, em primeiro lugar, está a saúde das pessoas. O problema aqui é outro. Garantir o sustento de todos quantos vivem da cultura, da promoção de eventos e de todas as atividades a eles associadas. E são muitos os que, em nome de um bem maior, perderam a fonte de rendimento pelo cancelamento de festas e celebrações.

Este é o regresso possível. As escolas estão fechadas. As crianças em casa. Muita gente em teletrabalho. Muita gente sem trabalho. Ninguém sabe se teremos de voltar a um confinamento obrigatório e a uma nova paralisação social. Ninguém sabe, mesmo. Por isso, é importante não esquecermos que esta é uma liberdade provisória, uma espécie de liberdade condicional que nos testará ao limite.

Não podemos facilitar. Isto ainda não acabou. Isto agora está a começar.

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