A Praia é mais antiga que Nova Iorque.

Os aparelhos de ar condicionado colocados há algum tempo na muralha da Praia foram retirados. À partida, para não serem repostos. Espero.

Durante a quarentena, uma pessoa amiga telefonou-me a transmitir a novidade. Fiquei contente. Afinal, ainda existe na cidade gente com bom senso. Gente que, mesmo com alguma demora, percebeu que o melhor a fazer naquele local seria devolver à histórica muralha da cidade o aspeto que outrora havia tido. Ao fazê-lo, não só se valorizou o monumento, como também o edifício. Valorizou-se a cidade, a nossa história, o património coletivo, a cidadania.

Devido ao confinamento, só esta manhã foi possível lá ir ver com os meus próprios olhos e registar fotograficamente a novidade. Lavou-me a alma. Um bom exemplo de que recuar não é vergonha. Vergonha seria insistir no erro.

Quando, em outubro do ano passado, escrevi um artigo de opinião sobre este assunto, muitas foram as pessoas que me abordaram mostrando a sua indignação face ao estado em que a muralha da Praia se encontrava. De facto, o seu estado era deplorável e a instalação daqueles aparelhos de ar condicionado, naquele lugar e da forma como estavam, em nada contribuíam para a sua dignificação. Era revelador de uma forma de tratar e valorizar o nosso património. Uma forma de permitir a uns o que se nega a outros.

Não sei de quem foi a iniciativa de os retirar. Ignoro quem vai reclamar os louros da benfeitoria. Isso que importa? O que sei é que quem o fez teve uma atitude sensata, contribuindo para a preservação daquilo que é nosso, da nossa história que tantas e tão frequentes vezes é maltratada.

O parto foi difícil. Demorou anos. Originou quezílias entre pessoas. Mal-entendidos. Ofensas que, na nossa pequenez, mesmo não o sendo, se transformaram em pessoais. Foi usado como arma de arremesso político e profissional, na maior parte das vezes por quem não sabe do que está a falar e desconhece os meandros deste género de processos. Levou tempo, mas o caso está sanado. Resolveu-se. Da minha parte, é o que importa. Quanto ao resto, já esqueci.

A muralha da Praia valorizou-se. A cerca do primeiro convento da Luz, também. Sim, do convento da Luz que existia naquele lugar. Quantos praienses saberão de ali ter existido um convento? Ali e em tantos outros locais da cidade? Quantos serão os praienses que conhecem a nossa história para além da batalha de 11 de agosto ou dos terramotos que destruíram a cidade? Não serão muitos. Infelizmente, também não será por sua culpa. Não têm como.

A triste realidade é que numa cidade como a nossa não há forma de se conhecer o nosso passado. Não há como saber o que fomos. Quem fomos. Como fomos. A nossa história não pode resumir-se ao último século, àquilo de que ainda há memória viva. A verdade é que temos mais de cinco séculos de história. Mais do que os Estado Unidos. Mais duzentos anos que Nova Iorque. No entanto, quem a conhece? Onde ela está? Como ir ao seu encontro?

Falta-nos um museu da cidade!

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