Um vício chamado cliente. Episódios de uma pandemia.

Primeiro, ligava a máquina do café. Só depois abria a porta. Era assim todos os dias. Não havia fins de semana, nem feriados, nem dias santos. Exceção para o dia de Natal. Mas até esse, desde que a mulher morrera, deixara de ser um dia especial e clientes, era coisa que não faltava. Percebera, então, que o seu pequeno boteco enfiado nos confins da ilha se tornara um ponto de encontro de seres solitários, de almas mortas e corpos à deriva. Vinham de longe. Ali não tocava música festiva, as luzes não piscavam e a televisão, nesse dia, permanecia desligada.
O espaço era escuro, pelo menos durante a parte da manhã. Ganhava luz à medida que o dia ia envelhecendo, atingindo o pico de claridade ao ocaso. Nesse instante, os raios de sol entravam pela porta principal e iluminavam a imagem de Nossa Senhora da Luz instalada numa pequena prateleira presa na parede. As flores costumavam estar murchas e envelhecidas, a não ser que alguma vizinha, poucas eram as mulheres que lá entravam, ao passar, se lembrasse de olhar para a santa, fosse colher uma ou duas flores do jardim anexo ao café, e fizesse a manutenção do pequeno altar. Quando isso acontecia, os homens interrompiam tudo o que estavam a fazer, pousavam a chávena do café, o copo de vinho, a aguardente, apagavam o cigarro e levantavam-se. Benziam-se e acompanhavam uma pequena novena que sempre se improvisava nesse momento. Até o Gabriel rezava. Este era um ritual habitual no café do Eduardo quando a mulher era ainda viva e todos os dias acendia uma vela e mudava as flores. Depois da sua morte, Eduardo deixou de o fazer e quase retirou a santa do lugar por achar que se tinha cometido uma injustiça ao ser permitido por Deus que a esposa embarcasse em primeiro lugar. Era muito mais nova do que ele e, embora nunca lhe tivesse dado um filho ou filha, amava-a de verdade e nada, nem ninguém, conseguiu fazer com que algum estremecimento tivesse havido na relação. E não foi por falta de o tentarem. Ela era bonita, jovem, sorridente e amiga de toda a gente. No seu tempo, o café parecia um daqueles lugares que nos acostumámos a ver na televisão e nas grandes cidades, com muita gente a conversar, rapazes e raparigas novas e até crianças a correrem de um lado para o outro, a comerem chocolates e a atazanarem o juízo aos pais para que comprassem mais um. Com a sua morte, a luz apagou-se, sobrando a da santa que se iluminava ao morrer do dia. Por isso, acabou por deixá-la ali ficar. Uma pequena luz comparada com a da falecida. Mas era o quanto bastava. Era o quanto da memória desses tempos de felicidade ainda sobrava, pelo menos no espaço da casa ocupado pelo café.
Todos os dias, à mesma hora, às cinco da manhã, saía da cama, tratava das necessidades do corpo, cortava a barba, não tomava duche, trocava de cuecas, vestia as calças do costume, calçava as meias às riscas, os sapatos habituais e terminava vestindo a camisa engomada no dia anterior pela rapariga que, todos os dias, tratava da lida da casa e lhe preparava o jantar. Não precisava de se pentear. O cabelo não requeria tamanhos cuidados. Só então se dirigia ao botequim. Ficava por debaixo da habitação e o seu acesso era feito pelo interior, o que dava bastante jeito.
A porta abria cedo, por volta das seis da manhã, e o movimento começava. O que mais saía àquela hora eram as sandes de queijo e manteiga, o café e bagaço. A rapaziada mais nova, menos numerosa, preferia galão e folhados de carne que vinham congelados do fornecedor para depois serem aquecidos num pequeno forno elétrico comprado propositadamente para esse fim. O padeiro passava ainda de noite, antes da porta abrir, deixando um saco de pão no lado de dentro do muro que circundava o pequeno jardim de acesso à escada que dava para o andar de cima. A meio da manhã chegava o queijo fresco.
De um dia para o outro, sem aviso, Eduardo foi obrigado a fechar a porta. Ordem do governo.
pauloribeiro.blog

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