A hipocrisia de David na luta contra Golias.

A apatia generalizada e a espectativa curta traduzem-se num acentuar de lideranças cada vez mais fracas, sem outra iniciativa que não a busca sistemática pela perpetuação de um poder, em teoria ao serviço dos outros, que deveria ser efémero, transformado em idolatração de um “eu” carreirista.

Cada vez mais, o coletivo desaparece, esfumando-se numa espécie de política de entretenimento onde importa mais parecer do que ser, abusando-se dos chavões da moda e do politicamente correto apoiado nas possibilidades que as novas plataformas digitais sabiamente vão permitindo.

É claro que isto só é possível pela inexistência de uma verdadeira massa crítica digna desse nome, mesmo quando essa massa crítica, nas ditas plataformas, se indigna profundamente, rasga vestes e se atira ao chão pelas grandes causas internacionais do momento, a cada momento, e olha para o lado nos assuntos que lhe estão mesmo à porta e que, por poderem interferir na própria vida, têm medo, e fazem de conta que não é nada com eles, permitindo aos de cá aquilo que condenam aos de lá.

Ser revolucionário envolve risco, incluindo a perda de emprego, a redução de rendimentos, a estigmatização, o não acesso a determinadas oportunidades que deveriam ser para todos, o escrutínio e a condenação pública. Ser um David perante um Golias que nem sabe da sua existência mais não serve do que fazer de conta que se é forte e dar um ar de pessoa que está do lado certo da barricada. É ser-se hipócrita.

Debaixo do nariz dos Davides de ocasião há tráfico de influências, apadrinhamento, corrupção, desigualdade no tratamento e nas oportunidades, há racismo não baseado na cor da pele, mas na cor do pensamento. Fechar os olhos a isto é permitir o aparecimento e crescimento de homens com o perfil dos que tanto se condena, apoiando os equivalentes locais. Fechar os olhos a isto é permitir que tudo isto exista, é estar no lado errado da história, mesmo que o conforto do momento indicie o contrário.

Não são os autoproclamados líderes que fazem o mundo andar ao contrário. Bem, são eles que fazem. Mas, para lá chegarem e se perpetuarem precisam do apoio das massas e do seu consentimento, quanto mais não seja da sua atitude de deixa andar e da sua apatia que se vai acentuando na mesma medida que a sociedade definha. O poder constrói-se com o medo. E só nós podemos controlá-lo.

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