E ainda assim, continuo a gostar de ti…

Continuo sem perceber porquê, mas salta à vista. De um momento para o outro, perdeste a capacidade de selecionar as tuas companhias. Deslumbraste-te com um discurso cheio de esperança, promessas a rodos, cantigas do bandido e deixaste-te embalar. Foste fraca.

Deixaste-te levar pelo brilho dos anéis e ficaste entusiasmada. Nos primeiros tempos, a coisa até correu bem. Fizeram-se coisas novas e até te deste a ares de uma modernidade estranha com o xaile que te puseram aos ombros, as galochas que te obrigaram a calçar e o lenço preto que te fez parecer uma viúva de marido vivo e que nunca mais o tiraste.

Passaste a viver de aparências. Passaste a viver só para os dias de festa e para quando recebes visitas. Não te arranjas. Não te lavas. Não te pintas. Não tratas de ti. Não tratam de ti.

Não! Praia, tu não és assim. Nunca foste assim. Fizeram-te assim. Vais ver, isto é só uma fase. Vai passar. Reage. Não te deixes cair nesse poço onde teimam em querer deixar-te.

Foste assaltada pelo mau-gosto e estrafegaram-te as entranhas. E tudo por dinheiro que terá ido parar sabe-se lá aos bolsos de quem, para benefício dos próprios, sugando-te o pouco que ainda tens. Usaram-te. Usam-te. Nunca foste rica. Mas sempre soubeste viver com dignidade, de cabeça erguida, orgulhosa da tua história, do teu passado, da tua vitória, das tuas gentes.

O que te fizeram as companhias… bem que te avisaram. Bem que te disseram que não fosses em cantigas, em promessas fáceis. Deixaste-te iludir. Deixaste que as tuas gentes ficassem distraídas com as minudências de aparência faustosa, mas sem conteúdo, sem pernas para andar, com pés de barro.

Prometeram-te este mundo e o outro. Preferiste acreditar no outro, o vendido pelos vendedores de banha da cobra que prometem hoje o que desmentem amanhã. Atiraram-te dinheiro para cima, sempre a merda do dinheiro. Untaram-te as mãos e acreditaste que eras rica. Não te deixes enganar, não és rica, não tens dinheiro para mandar cantar um cego e, ainda sim, insistes em fazer de conta que podes ajudar tudo e todos. Tomara conseguires pagar o que deves…

Tratam-te como uma criança e ficas feliz com isso. Dão-te um rebuçado e ficas feliz com isso. Passam-te a mão na cabeça e ficas feliz com isso. Ficas feliz com qualquer migalha.

Não, tu não és assim. Tu nunca foste assim. As tuas gentes também não.

Não és só a cidade de Nemésio. És também a cidade do Gustavo, da Maria, da Francisca, do Tiago, da Madalena, do Diogo… de todos os que te escolheram, de todos os que insistem acreditar em ti. Não os desiludas. Não nos deixemos iludir. Somos mais do que isto. Merecemos mais do que isto.

Todos cometemos erros e, no currículo, todos transportamos alguns pecados. Não és diferente, não somos diferentes. Ainda és nova e vais muito a tempo de refazeres a tua vida. De voltar a ser aquela cidade de que tanto gostamos. A mais bela de todas. A da mais bela baía. A da mais bonita das praias.

Estamos à tua espera de braços abertos. Não tenhas medo de assumir um erro. Da nossa parte, o perdão será garantido. Quanto se ama alguém como tu, perdoa-se sempre… foi só um mau momento e, ainda assim, continuamos a gostar de ti. Conta connosco. Estaremos sempre aqui. Nunca te abandonaremos.

A imagem foi retirada da página do Hotel Salles.

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