A aranha e o polvo.

Não podemos continuar a viver em função da ambição desmedida de uma pessoa, da sua ânsia de manipular e da vontade de tomar nas suas mãos o poder, só pelo poder, sem projeto, sem ideias, sem uma perspetiva comunitária de futuro.

Não podemos continuar a eleger quem tem por objetivo primeiro a criação de uma teia de interesses, de apoio à sua pessoa e imagem e, só depois, se ainda se lembrar disso, só depois procurar uma ou outra ideia, habitualmente reciclada, que faça o eleitor pensar que ele próprio, o incauto e distraído cidadão, é o objeto do seu trabalho quando, na realidade, não passa disso mesmo, de um objeto com capacidade de inscrever, num quadrado bem delimitado, uma cruz, a cada quatro anos.

Batemos no fundo. Não aprendemos com os erros dos outros.

Este tipo de ser cultiva a discórdia, extrema posições, radicalizando o discurso. Somos nós, os perfeitos, os eleitos, os puros; são eles, os infiéis, os pecadores, os impuros. A receita é conhecida, o resultado também. A divinização deste ser com tendência de invertebrado torna-se um objetivo em si mesma. Seca-se o que está à volta, abafa-se a oposição, seja ela interna ou externa. Tudo o que interessa é o poder. Tudo o que interessa é o “EU”.

Isto não é uma ficção criada a partir do nada. Tem bases bastante objetivas onde se encaixam nomes bastante conhecidos da nossa praça. Disfarçados até há bem pouco tempo e a atuarem de mansinho, em jeito de formiga de aparência inocente, até que o pudor se desvaneceu pelos exemplos que, vindos de além-mar, tudo permitem e tudo aceitam.

Cabe-nos a nós, aqueles que ainda acreditam no grande potencial que se esconde numa sociedade livre e sem medo de falar, combater esta calamidade que, aos poucos se vai alastrando apoiada pelo silêncio conivente e cúmplice de quem tem os meios para a estancar. Basta, para isso, não nos negarmos a fazer o exercício que se exige a um cidadão ou a um partido político que dê primazia a valores como a liberdade, a democracia ou a igualdade. Basta, para isso, não nos resignarmos e não virarmos a cara para o lado, fazendo de conta que não é nada connosco, e de que se trata simplesmente de um problema conjuntural, um epifenómeno.

Aos poucos, o sistema vai apodrecendo por dentro. Devagarinho e às escondidas, antes; às claras, aos olhos de todos e aceite por muitos, agora. Sim, perderam a vergonha e tudo é feito às claras com a impunidade garantida por um sistema que, embora democrático, se encontra viciado pelas regras que permitem o enviesamento da transparência e da liberdade de voto.

É impossível ser-se livre quando se vive dependente.

É impossível ser-se livre quando as lideranças radicalizam o seu discurso, manipulando as massas, apelando a um ultraconservadorismo de costumes e cultural, criando inimigos externos, sejam eles quem forem, reais ou imaginários, intangíveis ou palpáveis, mas que sirvam o momento, criando o tal efeito do “nós e eles”, dos “puros e impuros”.

Sem nos darmos conta disso, já nos dividimos. Já perdemos a capacidade de discutir, de argumentar, de debater, de nos unirmos para reivindicar e combater. Infelizmente, por muito que me custe dizê-lo, parece que só uma coisa nos une. Parece que só um tema, nos últimos tempos, conseguiu a proeza de mobilizar a sociedade terceirense… Não sejamos nós a criar motivos de distração. Não sejamos nós a criar formas de nos distrairmos daquilo que é essencial, do que é verdadeiramente importante para a nossa vida e para o futuro da nossa terra.

Uma corrida de toiros é só uma corrida de toiros… Enquanto isso, os senhores que decidem por nós vão continuando a construir as suas teias, prolongando tentáculos, alimentando clientelas, dividindo e tomando decisões que, embora nos digam diretamente respeito, nós não estávamos lá para as contestar ou para exigir mais.

É bom que nunca nos esqueçamos disto: existe sempre alguém que, atento às distrações dos outros, nunca anda distraído. Antes pelo contrário, alimenta-se dessa distração…

Um pensamento sobre “A aranha e o polvo.

  1. Belíssimo retrato deste polvo que nos rodeia, e que através da instalação do medo do dizer que não… Vai criando tentáculos, que se podem tornar irreversíveis, se não forem aniquilados pela coragem de dizer, basta!!!

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