centro social de santa rita

Foi a última vez que entraram naquela escola. Fizeram-no com o à-vontade de quem conhece os cantos à casa que foi a sua. Correram no pátio exterior, entraram com a educadora, foram ver os meninos e as meninas que àquela hora estavam a dormir, e perceberam que quem queriam realmente ver ainda não voltara do confinamento. Foram sozinhos até ao andar de cima, num momento em que pais e educadora conversavam distraídos, e trouxeram as suas mochilas da Patrulha Pata que estariam penduradas nos cabides que a partir de agora deixarão de ter os seus nomes.

O momento de confiar os nossos filhos ao cuidado de outros é seguramente uma das tarefas mais difíceis no processo de os educar. As dúvidas são muitas, tantas quantas as variáveis em jogo. A incógnita dos educadores, o ambiente, a alimentação, os colegas, os pais dos colegas, os recursos disponíveis, os horários, as instalações ou o projeto educativo são só algumas dessas variáveis e as enumeradas já são muitas.

Há que fazer opções e a decisão não foi fácil.

O Centro Social de Santa Rita foi a segunda casa dos meus filhos durante os últimos três anos. Uma casa feliz. Uma casa onde receberam todo o carinho e dedicação que se podem pedir a um jardim-de-infância. Para isso, no entanto, foi preciso que, no interior daquelas paredes, existissem seres humanos capazes de o fazer. Felizmente, existem. E fazem-no num contexto específico, no seio de uma comunidade com características muito próprias e bem vincadas, cumprindo de forma exemplar aquilo que se exige de uma Misericórdia.

Cruzando o portão de entrada, aquelas mulheres conseguem esbater todas as diferenças. Conseguem dar àquelas crianças a autoestima e as ferramentas necessárias para que se sintam seguras de si próprias, para que possam desenvolver-se e, pelo menos no interior daquelas paredes, possam ter acesso àquilo que numa situação normal só estaria reservado a alguns.

Se o conseguem sempre? Claro que não. Se a instituição é perfeita? Também não. Existem limitações e constrangimentos aos mais diversos níveis, como é normal. Mas o caminho faz-se caminhando mantendo o foco naquilo que é prioritário. Neste caso, as crianças, independentemente da sua origem social.

Por essa razão, neste momento de despedida, quero agradecer à Santa Casa da Misericórdia da Praia a paciência que teve comigo ao aturar as críticas que fui fazendo e ao aceitar as minhas propostas. Aos poucos, juntos, fomos conseguindo dando passos em frente, modernizando, corrigindo, encontrando soluções. Há sempre coisas a fazer. Faço votos, por isso, que se continue a olhar aquela valência com uma atenção especial, porque ela é especial, porque as crianças que lá estão merecem, porque quem lá trabalha já demonstrou estar à altura do desafio e cumpre.

Para terminar, quero deixar uma palavra de apreço e gratidão a quem, de perto, com muita paciência e coração cheio aturou as birras do Jorge, o seu feitio especial e respeitou o seu gosto pelo desenho, disponibilizando-lhe sempre uma folha branca e lápis de cor; a quem aconchegou a Amélia no colo, ainda muito bebé, tratou dela, lhe ensinou a brincar e a viu sair da creche como uma menina. Obrigado Lena, Sandra e Margarida. Obrigado Lúcia e Bia.

À Nélia Ávila, um obrigado muito especial. Quem o viu e quem o vê…

Por último, um obrigado à senhora Conceição, entretanto aposentada, a mulher que funcionava como uma espécie de avó de todos e dava ao Centro Social de Santa Rita a dimensão familiar que a uma instituição como esta se exige.

Nunca nos iremos esquecer de vós e tenho esperança de que mais ninguém se esqueça…

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