Vernissage

No ano de 1999, não havendo na Praia um espaço de dimensões e condições suficientes para a realização de espetáculos, improvisou-se. Adquiriu-se uma tenda de circo. Procedeu-se à sua montagem na zona do paul e aí fez-se cultura. Em maio desse ano, a Cooperativa Praia Cultural realizava a “semana & 1/2 de teatro” e os terceirenses tiveram oportunidade de, durante esses dias, assistirem a peças oriundas de todo o país. A teia, a barraca, o trigo limpo ou o papaléguas foram algumas das companhias participantes, havendo ainda tempo para homenagear Álamo de Oliveira.

Ainda durante esse ano, a tenda circense foi palco da apresentação da “ilha décima”, a opereta apresentada pelos Açores na Exposição Mundial de Lisboa do ano anterior, e teria recebido, meses mais tarde, Gilberto Gil, no âmbito do saudoso Festival do Ramo Grande, não fosse uma tempestade daquelas que bem conhecemos ter deitado por terra a improvisada sala de espetáculos popup, como hoje se diz. Gilberto Gil acabaria por dar o seu concerto noutro espaço improvisado à última da hora, o pavilhão da escola preparatória da Praia. Nesse ano, apesar das circunstâncias, o Festival do Ramo Grande aconteceu.

Sem a perfeição com que hoje se exige a tudo quanto é equipamento, fez-se cultura nesta terra. No velhinho Salão Teatro Praiense, no auditório da escola Vitorino Nemésio, no salão nobre dos Paços do Concelho, em armazéns, na rua, no restaurante Garça… um pouco por todo o lado. O Auditório do Ramo Grande só viria a ser inaugurado em abril de 2003 levando à cena a opereta “dia de s. vapor” da autoria de Luís Gil Bettencourt, tornando-se, assim, o palco de excelência da cidade, aquele que, ainda hoje, melhores condições oferece na ilha.

Vem isto a propósito da minha experiência cultural do passado fim de semana em Angra enquanto, no parque do relvão, que incluiu chuva, assistia à peça do alpendre “o jogo de diogo leal” com texto de Peter Cann e interpretada pelo Markus Trovão utilizando os baloiços e demais equipamento infantil lá instalado. Decorria o “festival de curtas de artes performativas de angra do heroísmo”.

Em espaços pouco habituados a receber teatro e dança, onde não se imaginaria tão pouco que se pudessem transformar em palcos, o alpendre, os cães do mar, o estúdio 13, o Tiago Arruda, a Diana Rosa e o Belarmino Ramos uniram esforços no sentido de levar cultura ao espaço público da cidade de Angra.

O conceito é louvável, tanto como o esforço e a vontade de se fazerem coisas em tempos incertos. Louvável, também, é a capacidade de se esbaterem barreiras e rivalidades e conseguir-se fazer algo em torno de um projeto comum de valorização de um bem que é de todos, a arte.

Em tempos como os que atravessamos, só a união pode dar frutos. Juntos somos mais do que a soma das partes, mesmo quando as partes, por si só, já teriam valor suficiente. E se alguém tem dúvidas nisso, bastaria ter ido no passado dia 15 de agosto ao Auditório do Ramo Grande assistir ao fantástico concerto dado pelo Gonçalo Fouto, pelo Gabriel Silva e pelo André Gomes que, “juntados”, se tornaram no last minute trio. Por vezes, só é preciso um empurrãozinho…

Nota: a imagem que ilustra este texto foi captada durante a exibição da peça “vernissage” que marcou o início da “semana & 1/2 de teatro”. O texto é do dramaturgo checo Václav Havel e, na Praia da Vitória, foi encenada por Junior Sampaio e interpretada por Judite Parreira, Valter Peres e José João Angeiras. A fotografia é da autoria de Carlos Armando Costa.

Um pensamento sobre “Vernissage

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