Há um piano a tocar na rua de Jesus.

O som de um piano fazia-se ouvir na rua de Jesus. Apesar de ainda ser muito cedo – o comércio ainda nem estava aberto – a estranheza não foi tanto por haver música, mas por se perceber que o piano estava a ser tocado por alguém, fazendo-se adivinhar que algures pelas casas do centro da cidade vive gente. Afinal, ainda há vida na rua principal da Praia.

Não serão muitos, mas os bastantes, em permanência, para se poder dizer que o chamado centro histórico da cidade não se rendeu todo aos serviços do novo mundo digital, ao alojamento local tão apetecível e de acesso fácil ou aos militares americanos a pagaram rendas apetitosas. Isso é bom. Gosto de pensar na ideia de que as cidades são, acima de tudo, locais para se viver em permanência, onde existem famílias, pessoas a fazerem compras, a cumprimentarem-se na rua, a dizer “bom dia” ou a perguntar pela saúde ou pelos filhos. Não houvesse gente, não era possível dizer-se uma cidade.

É claro que também há espaço para as outras atividades. Caso contrário, onde iriam as pessoas trabalhar? Onde iriam as pessoas às compras? Onde se instalariam turistas, visitantes de ocasião ou os americanos da Base? Um turista gosta de estar no centro da ação. O mesmo acontecendo com os americanos. Talvez seja por isso que algumas varandas se tenham transformado em estendais de roupa ao jeito daqueles que é usual ver-se na linha de Sintra, para quem já fez essa viagem de comboio, ou em algumas zonas do litoral de algumas das nossas ilhas tão voltadas que estão para o mar e para a pesca.

Enquanto estava no multibanco, consegui perceber de que melodia se tratava, sem que, no entanto, soubesse dizer qual o título ou intérprete na versão cantada. Não por culpa da execução, mas porque o ouvinte não é muito hábil na identificação enciclopédica musical. Não era um tema clássico como se esperaria. O que me põe a pensar que estaremos em presença, na rua de Jesus, de um jovem pianista. Afinal, dentro de portas, em ambiente doméstico, também se cultiva música e cultura.

Isto são tudo boas notícias. Nem tudo está perdido.

Esperemos, agora que o turismo está em baixa, que alguns alojamentos locais possam ser transformados em alojamento de longa duração com rendas acessíveis aos locais e que os sistemas de incentivos para fixação de famílias e empresas no centro da cidade funcionem, mas na condição de estas se abrirem à rua, interagindo com ela.

A melodia daquele piano fez renascer em mim uma esperança que começava a desvanecer-se. É possível fazer renascer o centro da Praia. Há gente a viver ali e existem espaços devolutos. Há lugar para que mais pessoas possam habitar a rua de Jesus. O que é que falta?

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