O meu Ciclo da Praia.

Sentei-me numa daquelas floreiras, em cimento, brancas riscadas de amarelo, colocadas em cima do passeio para que os carros não consigam estacionar. É a zona de acesso à passadeira. Em tarde de sol, fiquei a apreciar o movimento, enquanto a Márcia ia lá dentro buscar o Jorge.

Como diferente é aquela rua desde os tempos em que ali andei. Em bom rigor, o edifício não era bem aquele. Mas o edifício não é a escola… Em todo o caso, sinto-o como meu.

Nos idos de oitenta do século passado, aquela agora rua não passava de uma canada enlameada, emoldurada por muros de pedra solta em que, de um lado havia a escola e, do outro, pastos verdes de relva e vacas a preto a branco. As vezes de café/pastelaria era feita por uma mota atrelada a uma venda ambulante, pequena, numa estrutura de madeira pintada de branco e vidros a fazerem as vezes de montra, permitindo ao cliente menor visualizar os sacos de batata frita, as pipocas, os chocolates da base e as carteiras de cromos do Topo Gigio que, por aqueles tempos, juntamente com a Pantera Cor-de-Rosa, eram reis e senhores da televisão portuguesa. Sim, da portuguesa, porque na americana as forças eram bem mais poderosas, muito menos infantis, com o ecrã, já a cores, a ser dominado pelo Captain America, o Spider Man, o Super Man e outros super heroes, assim mesmo, com nomes em americano. É curioso que, passado todo este tempo, são estes mesmos seres a decorar as mochilas e as t-shirts dos meninos, uma vez que, as meninas, apesar de toda esta anulação de diferenças de género, continuam a optar pelas princesas, as frozens, as minies, o cor-de-rosa e os brilhantes. Há coisas que não mudam.

Anos mais tarde, a rua tornou-se mais transitável e, mesmo na boca da canada, surgiu “o palheiro”, uma extensão da “marsuga”, onde se comiam ambergas gigantescas e sandes de pasta-de-atum (uma novidade para a época). Do lado de fora havia uma espécie de esplanada que servia de sala de convívio.

Nessa altura as urbanas não passavam em frente à escola. A paragem mais próxima ficava junto à rotunda da Cruz onde também existia um café ao lado de um mini-mercado onde, aí sim, já se vendiam cromos de jogadores. Nunca gostei de futebol, mas também fazia todas essas coleções, não pela temática, mas pelo gosto de juntar, de colecionar, de fazer trocas e gastar dinheiro na busca do cromo difícil. O destino tem as suas ironias. É precisamente no espaço anteriormente ocupado por essa venda que hoje, depois de muitos anos, exerço a minha atividade profissional.

Por vezes chovia. Muitas vezes chovia e não nos constipávamos.

Já passaram muitos anos desde a época em que, do primeiro ano do ciclo ao nono ano, passei o meu tempo pelas salas de aula, pelos átrios e pelos pátios da então chamada escola preparatória da Praia da Vitória. Recordo-me bem da sirene de tocar para dentro e para fora, das sandes de pão-de-leite com um rissol dentro, das salas escuras da cave, de não haver aulas quanto faltava a luz e do ginásio ficar sem teto sempre que fazia mau tempo. Recordo-me de muitas pessoas que ali trabalhavam, dos professores e dos colegas. Algumas dessas pessoas ainda as encontro na rua e nos cumprimentamos. Temos um passado que se cruzou.

Esta escola já não existe. Existe outra que será necessariamente melhor. E o meu desejo mais profundo, neste momento em que os meus filhos ali entram pela primeira vez, é que tenham, daqui por quarenta anos, pelo menos, as mesmas boas recordações que eu tenho.

Daquela floreira riscada de amarelo, por entre o infernal trânsito das três da tarde, vejo-os sair satisfeitos. Estão felizes. Isso é que importa. Mais do que os números e as letras, é isso que se quer de uma escola: formar seres humanos felizes!

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