O que a gente se riu!!

Prezada como só ela, consolava-se com uma bela gaitada. Era incapaz de sair de casa sem que primeiro se olhasse ao espelho, passasse a escova pelo cabelo e pintasse os lábios, até para as voltas mais pequenas. Os seus sapatos de queda, mesmo com os pés inchados, eram a sua imagem de marca. A minha avó Isilda era uma mulher bonita, de presença forte, senhora de uma autoestima e frontalidade desconcertantes, dizia o que pensava e nem sempre pensava no que dizia. Era uma mulher admirável e de trabalho. Amou-nos muito. Amámo-la muito.

Viveu uma vida longa e cheia. Gostava da vida. Gostava de viver. Gostava de gente. De ter sempre muita gente à sua volta. De festas. De comer. De conversar e de encontrar um bom motivo para dar uma gargalhada só pelo prazer que lhe dava ver toda a gente bem-disposta e a rir. A rir muito. A dar gaitadas. Adorava ficar até às tantas a ver os debates políticos e de futebol na televisão. Consolava-se com aquelas discussões e de provocar o meu pai sempre que o Porto perdia, principalmente se fosse o seu Benfica a ganhar. Era José Albino e PPD. Era Sociedade Velha e pedia silêncio quando a filarmónica subia a rua da igreja no dia da procissão. Escutem! Até o som é diferente… lembrava-lhe o pai.

Gostava de ir para o largo da igreja ver o Senhor Espírito Santo a sair depois da missa e, se a vereança descesse a rua, ia sentar-se na varanda da Virgínia a apreciar os pormenores, as pessoas, as roupas, a ordem das coroas e os empregos.

Gostava de passear, gostava da América, onde vive o seu filho mais novo, e de Lisboa, a terra do seu marido, companheiro de mais de cinquenta anos. A falta que ele lhe fez. A falta que eles nos fazem. Tinha vontade de ir para junto dele. Muitas eram as saudades. Se eu ainda sinto falta do meu avô Vitor, nem consigo imaginar como, no seu íntimo, terá vivido estes últimos vinte e três anos de ausência. Solidão? Tristeza? Nostalgia? Saudade?..

Ponho-me a pensar se terá sido feliz ao longo dos seus 91 anos de vida. Tento encontrar uma resposta. Quero acreditar que sim. Gostava que assim tivesse acontecido. Sei que nem sempre o foi. Ninguém é. Ninguém foi. Alguns sonhos não se concretizaram. Expectativas terão sido desfeitas. Desilusões. Tristezas. Desgostos. Lutas por vencer. Causas perdidas. Nunca o saberemos… Venceram as alegrias. Sempre vencem!

Ensinou-nos a pedir a bênção e a dizer obrigado. A sermos gratos. A ver o bem que os outros fazem por nós e a retribuir. Por essa razão, em seu nome e em nome de toda a família, quero agradecer a todas as senhoras do serviço de apoio domiciliário do Lar D. Pedro V tudo o que fizeram por ela. A paciência, o carinho, a compreensão, a amizade e o conforto que lhe deram. Quantas vezes a minha avó lhes dizia coisas que não se podem repetir, chegando a entrar na sua intimidade, roçando a indiscrição. Quantas vezes lhe chamávamos a atenção para o não fazer e ela respondia “elas gostam de mim, são minhas amigas!” O trabalho destas mulheres é louvável. É um trabalho duro. Ingrato muitas vezes. Difícil. Apesar disso, estas mulheres conseguem ultrapassar-se a si próprias, a deixarem para trás os seus problemas pessoais, entregando-se a quem precisa de consolo, de companhia e de quem as ouça. Obrigado. Obrigado por terem sido amigas da minha avó. Como diz a minha tia Marília, vocês são as joias do Lar!

Ficam as memórias. Ficam os ensinamentos. Fica a certeza de que, a esta hora, sentado à cabeceira da mesa da cozinha, já estará o meu avô, com o seu bigodinho aparado de escovinha, a rir, bem-disposto, bebendo a sua caneca de café de cevada e a minha avó, na cozinha velha, finalmente a preparar este há muito ansiado almoço a três.

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