Andar de máscara liberta.

Percorria eu o corredor dos enlatados do supermercado para comprar salsichas, um daqueles produtos imprescindíveis numa casa com crianças, quando, subitamente, a música ambiente mudou para um daqueles temas conhecidos e populares do José Cid. O macaco gosta de banana ou uma outra coisa qualquer desse género, já nem me recordo bem. Como que por instinto, o meu aparelho vocal deu por si a cantarolar a orelhuda melodia e, quase em simultâneo, a reprimi-la por ter noção da figura que estaria a fazer cantando a plenos pulmões no hipermercado. Estão a ver quando vamos no nosso carro em altos berros e alguém se apercebe disso? A sensação foi a mesma.

Porém, a rapidez do nosso pensamento em autorreprimir gestos e movimentos, às vezes surpreende no momento em que se apercebe da existência de uma alternativa que, embora tenda para a parvalheira, é altamente libertadora. Foi isso que me aconteceu em plena grande superfície comercial, rodeado de lata, gente e promoções com desconto em cartão.

Paulo, estás de máscara! Ninguém vai reparar nos movimentos que fazes com a boca, se estás a cantar, a rir, a fazer caretas ou a pôr a língua de fora a alguém. Humm… e se a máscara é transparente e as pessoas dão por isso? Estás-te a passar… Repara nas outras pessoas. Estás a ver, aquela senhora com a ar de dondoca está a rir-se desse teu novo corte de cabelo estilo confinamento e tu nem dás conta disso. Será?! Não, nunca mais. Eu sei quem é, ela nunca faria isso. Tens a certeza? Já reparaste bem que os olhos dela mudaram de expressão? Cá nada!… Agora que me chamaste a atenção… Experimenta. Põe-lhe a língua de fora. Isso é coisa de canalha. Será?!

Acedi àquela tentação demoníaca e soltei o Paulo Jorge de sete ou oito anos que anda cá por dentro. Custou a princípio. Viste?! Viste?! Ela nem deu por nada. Epá, tens razão. Agora canta! Grita! Faz de conta que estás no chuveiro. Ui… queres ver… É estúpido? Talvez seja. Mas esta foi uma forma que encontrei para, apesar de todo o desconforto que resulta da utilização de uma máscara, ser possível divertir-me com aquilo. Experimentem. Eu sei que parece ridículo. Não é. Só o seria se os outros vissem. Mas é libertador e ninguém dá por isso. Já agora, da próxima vez que se cruzarem com alguém “mascarado” tentem imaginar a expressão que estará por detrás do disfarce… talvez existissem surpresas. Divirtam-se. Transformem um mau momento numa oportunidade para extravasar…

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