Tiro aos pássaros.

O tiroteio prolongou-se por muito mais tempo do que aquilo que é habitual.
Ouviam-se disparos, ora vindos da direita, ora vindos da esquerda, sem que, no entanto, conseguíssemos perceber ao certo se eram mesmo tiros, se eram só tiros, ou se uma qualquer algazarra desconhecida vinda sabe-se lá de onde ou por quem.
A tudo se assemelhava aos ruídos de uma guerra. Só que esta não tinha nem causas, nem rosto, nem sequer uma mensagem inteligível. O céu estava limpo,
a temperatura bastante alta para esta época do ano e eu aproveitava a calmaria de uma manhã de sábado para ler, na rua, ao som de intensa ofensiva bélica. Coincidência, as páginas que folheava relatavam-me a história de um militar terceirense que, em plena guerra, na Guiné-Bissau, algures numa tabanca, ensinava Segunda, uma menina local que chorava lágrimas grossas, a ler e a escrever.
No volver a esta outra guerra, com tiros de espantamento de pássaros, também dou comigo a comover-me ou perto disso ou nada que tenha a ver com isso. Não será necessariamente comoção, mas dá vontade de chorar.
O tiroteio termina de forma abrupta sem se fazer anunciar. A trégua rapidamente é interrompida por um forte ronco, ensurdecedor, mas familiar e cada vez mais raro. Em simultâneo, um forte cheiro a combustível invade-me as narinas sem sequer bater à porta. Dir-se-ia que as águas do subsolo se volatizaram e que, agora, não só água, não só terra, mas também o ar precisam ser descontaminados.
Esta guerra cheira mal e deixa-nos enjoados. Dá pena. Ao que se chegou.
Ficamos com a impressão de que estes vapores de hidrocarbonetos, para além de fazerem mover aeronaves, automóveis e bombas atómicas, também têm a capacidade de anestesiar e alienar. Até de toldar a vista e silenciar. É espantoso o potencial destas gasolinas. Se ao menos fosse possível engarrafar estes ares…
O avião, agora já sem os pássaros na pista, seguiu o seu rumo. Voltou o silêncio, a calmaria e o odor acabou por se dissipar. A guerra fica para trás, os combates cessam, os disparos silenciam-se, esquecem-se os problemas, desaparecem as soluções até uma próxima batalha. Nessa altura, voltarão os tiros e os disparos sem que se perceba ou questione, novamente, quem os fez e porque os fez.
Até lá – e enquanto esta não termina – resta-nos assistir a mais uma contenda onde quem está parece que nunca lá esteve e quem não está parece que nunca de lá saiu.

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