Se eu fosse presidente…

“Se eu fosse presidente pedia às pessoas para fazerem palhaçadas todo o dia e para cantarem ruffles ruffles!”

Já era noite e, depois de jantarmos em casa da avó, fomos buscar a mãe que ficara no atelier até mais tarde, numa reunião, que isto de trabalhar exclusivamente na privada e por conta própria não é bem como se julga. Na viagem, como que saído do nada, o Jorge lança a exclamação. Perguntei-lhe o porquê. Limitou-se a dizer “porque sim…”. Fez uma pausa e prosseguiu a falar em brincadeiras, nas coisas divertidas que fazia, na escola e no ATL, dos seus desenhos, dos seus amigos e das partidas que pregavam e das tolices que diziam. No meio disto, a substituir as vírgulas, o Jorge ria e dizia “Amélia, sabes, hoje o Gabriel…” e riam-se os dois perdidos nas graçolas do amigo comum e ela procurava dizer algo ainda com mais piada. “Hoje, na natação, comi o esparguete…” E riam-se… mesmo quando não tinha graça, pelo simples prazer de rir.

O caminho que separa a casa da avó e o trabalho da mãe não é muito longo. Depressa chegámos à Praia e, à porta, a Márcia esperava por nós. “Papá papá, eu estou a ver ali a mãe!” Depois de entrar e de se sentar no carro, os dois atropelavam-se para lhe contarem as novidades do dia.

“Mamã mamã, hoje o Mateus fez anos e tinha uma pinhata!” Era bonita? “A professora levou um robot para a sala!” E tu brincaste com ele? “E fizeram um espetáculo.” “Era vermelho e branco com uns botões!” “Tem morcegos na sala.” “Fizemos um desenho.” “Aprendi a letra O.” “Onde vamos?” “Já fiz os trabalhos de casa” “Eu quero ir comer palitos de queijo!” “Quando chegarmos a casa quero ver os PJ Masks.” “Eu quero ir comer palitos de queijo!” “Os novos.” “Eu quero ir comer palitos de queijo!” “No Netflix.” “Eu quero ir comer palitos de queijo!” “Eu quero ir ao Bâba Kin.” “Eu quero ir comer palitos de queijo!” “Eu quero ir ao Bâba Kin.”…

Nesta fase, já as gargalhadas terminaram, já não se ouve mais nada a não ser gritos. Gritam um com outro, discutem sem se perceber o que dizem. Em tom conciliador, a mãe limita-se a dizer “Vocês já comeram em casa da avó. Vamos agora para casa.” “NÃAAAAO! Eu quero ir comer palitos de queijo!”

Dito isto, no instante seguinte, a Amélia já dorme. O silêncio regressa e, até à hora de se ir deitar, muito tarde como gosta, o Jorge prossegue com o seu discurso de boa disposição, de vontade de rir, de vontade de brincar e com muitos planos para o dia seguinte.

Pela manhã, ainda noite, o despertador toca. A Amélia, embora muito ensonada, pergunta se já é de dia. Apercebe-se que não. Ainda assim, vai saindo da cama bem-disposta e começa a tagarelar. Quanto ao Jorge… mesmo que lhe sejam relembrados os planos da noite anterior só consegue emitir uma única palavra: “Dumí…”

“Se eu fosse presidente pedia às pessoas para fazerem palhaçadas todo o dia e para cantarem ruffles ruffles!”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s