À distância de uma vaca.

No início da primavera deste ano, às quatro da tarde em ponto, sentávamo-nos em frente aos ecrãs, como se de missa se tratasse, a ouvir os números da pandemia, os infetados, as vigilâncias ativas, as cadeias de transmissão, as medidas adotadas e as recomendações das autoridades de saúde. O chão pareceu fugir-nos debaixo dos pés. Agarrámo-nos a tudo quanto acreditávamos, deixando de acreditar em muito do que tínhamos por certo e garantido. Confinados nas nossas casas, nós, os obedientes açorianos, unimo-nos em torno desta que era uma causa comum, uma espécie de terramoto, uma tempestade anunciada e que esperávamos passasse ao lado. A Região política fez o mesmo. Mesmo em ano de eleições, este não era um tema para ser usado como arma de arremesso. Era, isso sim, um momento para se mostrar que, mais importante do que as eleições, o poder e os partidos, estava o bem comum. Aliás, razão única da sua existência. Todos se uniram. Todos se respeitaram. Todos colaboraram. Até que, um dia…

Até que, um dia, apareceu uma vaca a indicar-nos a distância de segurança entre pessoas para que se evitasse o contágio pelo novo coronavírus. Havia a vaca, havia o atum rabilho, havia queijo da ilha, hortênsias e já não me lembro se até os ananases foram usados como unidade de medida. O facto é que foi a partir desse momento que ora as recomendações eram transmitidas pelas autoridades de saúde, ora eram transmitidas pelo partido que suportava o governo. Julgavam ter-nos na mão. Havia-se instalado a confusão conveniente e a pandemia tornou-se o centro da propaganda governativa, servindo de justificação para todos os males da governação. Não podendo atirar as culpas para Lisboa como noutro tempo, optou-se por justificar os atrasos regionais com um vírus que não justifica os últimos vinte e quatro anos.

O episódio da vaca foi, por isso, o assumir de que governo e partido eram uma e uma só entidade. A mesma que controlava a sociedade fazendo-a depender da sua boa-vontade e dos apoios seletivos que concedia. A mesma que criou uma casta que, vivendo numa gaiola dourada, não percebia as queixas do coletivo nem das empresas e que achava que era o bastante atirar o dinheiro que não tinham para cima dos problemas. Tínhamos batido no fundo. Estamos no fundo.

Dizia-me há umas semanas um amigo socialista que, pela primeira vez na vida, iria votar no PSD para que o PS perdesse a maioria absoluta. Admirado, perguntei-lhe a razão. Explicou-me que, no seu serviço, já andam a rapar o fundo do tacho sempre que é preciso nomear alguém e que isso é assustador. Assenti, dizendo-lhe que isto começa a ter incapazes a mais e a prova disso é que não é preciso muito para se chegar a determinados cargos.

Daqui por um ano temos eleições autárquicas. Da sua preparação dependerá em muito a solução governativa saída das eleições do passado domingo. Tudo está em aberto. Mas tudo está diferente. Não é possível continuar a fazer de conta que as coisas vão bem quando não estão. Não é possível continuarmos a trilhar um caminho de insucesso, insistir nele, sem que nada se altere. São precisos projetos. Precisamos de um desígnio. Não de frases ocas, promessas vãs ou desculpas de mau pagador.

Apesar da incerteza do futuro próximo, nada será como dantes. Avizinham-se tempos difíceis, sabemos disso. Mas tempos que nos obrigarão a dialogar, a conversar, a ceder e a aceitar com a humildade que se exige a quem, com responsabilidade, se propôs governar os destinos dos Açores. Contudo, esse não é só trabalho dos governantes e dos políticos em geral. É um trabalho de todos, também de nós, os que queremos a mudança. Em coerência, temos de cumprir a nossa parte enquanto cidadãos. Sermos mais ativos, participando, tendo opinião e não nos calarmos só porque é mais conveniente. Este será um tempo de união, de procura de consensos, sem que tenha de haver um pensamento único. É na diversidade de ideias e na sua discussão que se conseguem melhores soluções. Esse terá de ser o caminho, um caminho de negociação permanente.

Para terminar, resta-me partilhar as recomendações já costumeiras deste ano de 2020: tenham juízo, usem máscara e mantenham entre si a distância mínima de aproximadamente uma vaca de tamanho médio. Vão ver, vai ficar tudo bem.

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