Ir aos touros e comer donetes.

Times Square celebrava a vitória de Biden como quem festeja a chegada antecipada de um novo ano. Sem neve, sem frio, a euforia apoderou-se dos corpos daquela gente que, em plena luz do dia, dava as boas-vindas ao regresso de uma normalidade julgada perdida. Dançavam, cantavam, gritavam, exteriorizavam, sem preconceitos, o que lhes ia na alma, despreocupados com o que os demais pudessem dizer. Who cares?!

Sentado no meu sofá, nas Lajes da Terceira, observava a cena e a surpresa do jornalista ao comentá-la. Dei por mim a pensar: qual o espanto? O que há de tão extraordinário nisso? That’s the american way of living! E foi nesse mesmo instante que me caiu a ficha. Foi nesse preciso momento que percebi a evidência. Como poderia o repórter achar aquilo normal? Claro que não podia. Nada do que ali se passava tinha que ver com ele, mas tudo tinha que ver comigo ou, pelo menos, não era comportamento que me causasse estranheza. Identifiquei-me com aquela gente. De certo modo, faz parte da minha identidade cultural e não adianta dizer o contrário.

Cresci a ver o Soul Train, o New York Hot Tracks, o Solid Gold, o Sesame Street, o Dallas, o General Hospital e a comer pancakes, hamburgers, cheeseburgers, donuts, hot dogs e gamas. A vestir Levis, a calçar Nike e All Star e a levar para a escola capas azuis de três argolas e lápis de cera Crayola em caixas de 64.

Como poderia esta longa convivência próxima com a cultura norte-americana não ter deixado em mim marcas profundas? Claro que não podia. Negá-la, seria como negar-me a mim próprio. Seria como negar-nos a nós próprios. É por demais evidente que esta porção de território português é diferente das outras. Os nossos gostos, a nossa forma de estar, de viver e celebrar. Veja-se o Natal…

Por isso se estranha como nunca tenhamos assumido algumas dessas influências como nossas, mesmo que profundamente enraizadas. Diria mesmo que já são identidade cultural. Parte de nós é americana. Não será já a donete um doce tradicional? A galinha frita um prato típico? Se às marchas de São João já lhe chamamos tradição…

Aculturámo-nos e não há razões para ter vergonha nisso.

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