Uma zaragatoa pelo Natal.

As duas últimas semanas, cá por casa, foi o regresso ao confinamento. Embora não sendo total para os quatro que cá vivem, evitaram-se ao máximo os contactos, não se comeu nos restaurantes, a atividade profissional fez-se na mesa da cozinha e as saídas foram as estritamente necessárias.

Por ordem do delegado de saúde, a minha filha mais nova teve de ficar em casa. O jardim de infância que frequenta foi encerrado por um dos adultos que lá trabalha ter testado positivo ao novo corona vírus. Tomaram-se as medidas possíveis, até porque o irmão, mais velho, estava autorizado a ir à escola.

Por sete dias, pelo menos até sabermos o resultado do teste à COVID feito no passado sábado, repetimos a sensação estranha que foi a primavera deste ano. Parcialmente, diga-se. No caso da Amélia, no entanto, foi pior, embora durante menos tempo. Esteve sem o irmão. Brincou sozinha. Ocupou o tempo a inventar o seu espaço, esperando pelo bom tempo e pelo fim da tarde até que o seu melhor amigo regressasse a casa. Chegou a passar o dia com um pijama dele vestido, tal eram as saudades.

“Estou sempre aqui. Podemos ir a algum sítio?”, perguntava. Estava farta de ficar em casa. A mãe, numa capacidade de improviso que só as mães têm, saca da cartola uma ideia, “Olha, vamos as duas à reciclagem. Vai-te vestir.” É indiscritível a felicidade estampada no rosto da criança perante a espectativa de poder, finalmente, ir à rua, andar de carro, passear. Nem que fosse ao ponto de recolha de lixo.

A correr para o quarto, escolheu uma roupa nova nunca antes vestida, com póneis e unicórnios, como se fosse para uma festa ou a algum especial acontecimento. “Amélia, não precisas vestir essa roupa, vamos só à reciclagem!”, dizia a mãe. “Eu quero esta!” Era afinal um momento especial. Ia sair. Olhando isto, dei por mim a pensar que a vida social da minha filha, neste momento, estava reduzida à visita ao ecoponto. A nossa não tem estado muito diferente.

Regressada a casa, na embalagem da ação e da liberdade, ocorreu-lhe perguntar: podes dizer à professora para vir à nossa casa?

Conhecido o resultado do teste, reacendeu-se a esperança de voltar à escola. Uma vez de férias, tal não era possível, mas havia o ATL. Brincar com outros meninos, estar com as professoras, fazer muitas atividades na mata… O balde de água fria chegou na manhã seguinte, via telefone. Apesar do resultado negativo, teria de continuar em isolamento profilático até ao dia 24.

Refeita do choque e da desilusão, ocupou a sua mente com a derradeira preocupação: quantos dias faltam para o Natal? Começou a contagem decrescente, a cada acordar, a cada deitar, a cada momento… É hoje! Feliz Natal!

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