Os rubros lábios de Marisa.

Achamos sempre que o Povo não liga nenhuma à política. Estávamos enganados. Parecendo adormecido, tem andado bem acordado e não deixou passar incólumes os condenáveis comentários feitos pelo mais visível dos candidatos extremistas. Vai daí, as redes sociais inundaram-se de beiços pintados de encarnado, alguns deles com aquele toque bem delineado de vendedora de produtos de maquilhagem, outros ao estilo matrafona desencaminhada como que anunciando a proximidade dos festejos carnavalescos. Uns e outros tinham um objetivo nobre: condenar os vis ataques à senhora e aquela forma primária de se fazer política. Senti-me tentado a associar-me ao movimento. Ainda procurei por casa um batom. Nesse entretanto, apercebi-me que havia sido criado um hashtag que associava esta luta à necessidade de levar para Belém a cor vermelha, excluindo assim todos os portugueses que não comungam da ideologia pintada por cor e deixando para trás outros vermelhos que, no contexto dos ataques do extremista de serviço, também foram ofendidos na pessoa do seu líder e de que ninguém sequer se deu ao trabalho de defender. Fiquei, por isso, excluído deste novo vírus das redes sociais.

Não se combate extremismo com extremismo. Não se combate xenofobia com exclusão. Não se combate racismo com a divisão da sociedade entre nós e eles. Entre os moralmente puros e os moralmente impuros.

Para mal dos nossos pecados, esta tornou-se uma campanha do vale tudo, onde o disparate é audível a cada instante. Uma campanha em que uma candidata se regozija por ter o apoio de um criminoso que, sem qualquer pudor, devassa os nossos computadores sem pedir licença. Em que um candidato visita lares de idosos numa altura em que nenhum outro cidadão o pode fazer. Em que uma candidata responsabiliza o Presidente da República de Portugal pelo aumento de apoiantes a Donald Trump. Em que o discurso racista e xenófobo parece normalizar-se. Em que o extremismo se apoderou da sociedade. Em que quem procura ser equilibrado é acusado de conivência com os extremistas. Em que quem não é vermelho rapidamente é rotulado de fascista.

Esta é uma campanha em que a cor de um batom ofusca o mérito das propostas e a nitidez das contradições.

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