Desprezível.

Não ficaria de bem com a minha consciência se não trouxesse ao espaço que semanalmente ocupo neste jornal aquilo que considero ter sido um dos momentos mais vergonhosos da história da Assembleia Legislativa dos Açores. Bem sei que a força política que o senhor deputado Carlos Furtado representa é essencial para que se mantenha a atual solução governativa encabeçada pelo partido político do qual sou militante e em nome do qual já ocupei os mais diversos cargos, públicos e partidários, incluindo o de deputado regional. Tal facto não me pode toldar a vista e o discernimento, fazendo de conta que comportamentos como aquele são normais. Não são e em nada engrandecem as instituições autonómicas e a democracia. Quem cala, consente e eu não consinto.

Ao longo dos últimos tempos temos assistido a uma normalização do discurso da ofensa e da violência verbal gratuitas. Embora não seja propriamente uma novidade, a verdade é que, agora, estas coisas dizem-se e fazem-se sem que ninguém – ou muito poucos – o condenem publicamente, normalizando-se o “inormalizável”. Sempre houve quem na oratória parlamentar andasse no limiar do admissível e do socialmente correto. Houve sempre também quem, aqui e ali, cruzasse a linha vermelha do aceitável e quem disso fizesse imagem de marca. Porém, eram respeitados os limites da civilidade e da linguagem ofensiva. Podia dizer que tal comportamento não é admissível a um deputado. Não. Tal comportamento não é admissível a nenhum ser humano que se orgulhe de o ser.

Vivemos um período muito conturbado quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista social. Os tempos que correm não são fáceis e o estrebuchar pela ofensa forçada ou ressabiamentos diversos está na ordem do dia, a cada esquina, a cada postagem nas redes sociais, a cada comentário, a cada reação. Não quero com isto dizer que os envolvidos não tenham razão e que as pessoas devam ficar caladas perante a indignação e a injustiça. Façam-no. Mas sejam inteligentes. Não copiem os maus exemplos.

Sou do tempo em que um presidente de câmara, na Assembleia Municipal da Praia da Vitória, da qual fiz parte, insultava impunemente os membros da oposição. Os seus correligionários achavam graça, aplaudiam e juntavam-se à festa sem perceber a razão da nossa indignação. Resistíamos como podíamos. Reagíamos procurando não descermos ao mesmo nível. Nessa altura, achava tudo aquilo condenável. Embora volvidos alguns anos, continuo a ser a mesma pessoa. Continuo a achar desprezível esse tipo de comportamento.

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