A maldição da vacina.

Atirar o nome das pessoas para a lama como forma de sacudir dos próprios ombros a responsabilidade parece ser a nova onda do debate e do comentário político. Querer ficar sempre bem na fotografia, do lado certo, é o móbil final.

As Instituições Particulares de Solidariedade Social, vulgarmente conhecidas por IPSS, onde se incluem, por exemplo, a esmagadora maioria dos lares e residências para idosos, têm prestado ao longo desta pandemia um serviço inestimável e, diria mesmo, irrepreensível. É óbvio que haverá, aqui e ali, algo que terá corrido menos bem, terão cometido os seus pecadilhos, ou não fossem estas instituições compostas por seres humanos e esta ser uma situação que a todos apanhou de surpresa e da qual, só aos poucos, vamos obtenho conhecimento e soluções. Não adianta, agora, armarmo-nos em virgens impolutas, imaculadas e sem pecado, hipócritas e pidescas, na ânsia de encontrar toda e qualquer falha nos outros, crucificando quem, mesmo tendo-se posto a jeito, talvez tenha por falha única o facto de ter obtido algo que nós, mesmo se quiséssemos, e mesmo à socapa sem que ninguém soubesse, não conseguiríamos.

Os funcionários das IPSS’s e os seus dirigentes têm sido o único rosto, tantas vezes o último, que animam a vida dos nossos idosos. São o seu derradeiro contacto, aquilo que os liga ao mundo exterior, os canais de notícias e os mensageiros das alegrias, mesmo que momentâneas ou de ocasião. São eles a sua companhia, são eles que lhes contam um bom mexerico, uma boa história e lhes proporcionam uma bela gaitada. Haverá lá coisa melhor quando não se pode ter a visita da família e dos que lhes são mais próximos? Esta gente, mesmo com as suas vidas e os seus problemas pessoais, são a família possível dos nossos idosos. Por isso, é com tristeza e perplexidade que, de um momento para o outro, o seu bom nome, o das IPSS’s e dos seus colaboradores e dirigentes, é atirado para a lama como se fossem eles os culpados da escassez de vacinas ou das falhas do sistema, se é que o sistema falhou. Maior perplexidade, ainda, é ver a tutela – o vice-presidente do governo – a fugir às suas responsabilidades atirando todas as culpas para o colega do responsável pelo setor da saúde, deixando transparecer que talvez não exista um único governo, mas dois: um para as coisas boas, outro para acatar com as culpas. Não estou com isto a dizer que esta não é responsabilidade da saúde. O processo de vacinação é claramente uma competência sua. Só que depois de ver Artur Lima correr atrás das câmaras da televisão para ficar colado ao processo, ter fotografias ao lado de pessoas a serem vacinadas, procurando assumir a sua liderança, estranhei que ao primeiro problema ele fugisse e atirasse as culpas para cima dos outros. Esta atitude não é digna de um vice-presidente de um governo, muito menos de um governo de coligação.

Como exigido numa situação desta natureza, a secretaria regional da saúde abriu um inquérito para perceber o que se terá passado neste processo que tanta tinta tem feito correr. Sei que muita gente quer saber quem foi vacinado e não deveria ter sido. Querem nomes. Querem listagens. Querem sangue. Conheço bem os atuais responsáveis da saúde e estou certo que esse não será o caminho. Que o importante não é atirar pessoas para a fogueira e queimá-las na praça pública. O importante é perceber o que terá corrido menos bem para que se afinem procedimentos e se avance no difícil processo de vacinação de toda a população açoriana.
Para terminar, uma última reflexão, tenho visto frequentemente os governantes a fazerem, eles próprios, a defesa dos ataques da oposição. Não é que lhes fique mal, mas, questiono-me: onde andam as senhoras e os senhores deputados?

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