Sem título.

A ideia romântica de estar sentado numa esplanada a escrever postais é algo que, aos nossos olhos de seres tecnologicamente viciados e dependentes, nos parece obsoleto e anacrónico. Talvez até achemos antiquado e desajustado. Uma total perca de tempo, já que em poucos segundos conseguimos contactar com quem quisermos, em qualquer dos múltiplos cantos do planeta. A não ser que o sinal seja fraco, lento, inexistente ou que, apesar de termos um telemóvel topo-de-gama, o mais caro do mercado, tenhamos o serviço de dados desligado, o mundo está à distância de um touch de calorzinho da ponta um dedo.

Não sendo a oferta tão diversificada como a de outros tempos, ainda existem postais à venda. Apresentados ao potencial comprador naqueles expositores giratórios todos desengonçados, não se pode dizer que sejam muito atrativos ou que a temática se identifique com a imagem que queremos dar da nossa terra. Privilegia-se a ação do homem ao invés da Natureza.

Cheguei à avenida e estacionei. Optei por não pagar parquímetro. Sujeitei-me a ser multado por uma empresa privada. Aceitei, no entanto, correr o risco, na esperança de, quando receber a notificação, o delito já ter prescrito. Não foi preciso. Tive sorte em não ter nenhum cidadão civil, daqueles que se fardam, a… autuar-me?! Pode-se dizer assim? Ou a fiscalização de trânsito é uma competência exclusiva das autoridades de segurança? Confesso que nunca entendi isso. Nem isso, nem a ausência de número de contribuinte nos recibos… um café tem de ter, certo?

Comprei uma meia dúzia de postais. Não precisava de tantos, mas fiquei com alguns de reserva. A menina que me atendeu, diligente e de máscara, perguntou-me se também queria selos. Claro que sim, respondi eu. Faz-me evitar tempos infindos na fila dos correios. O tempo que me poupa. Dito isto, dei por mim a pensar na contradição do ato. Por um lado, optei por enviar postais para retomar um costume antigo, por outro, queria fugir a sete pés dos incómodos da estação de correios. Não Paulo, não é uma contradição. Antigamente, os correios só eram correios, agora são livraria, banco, segurança social, repartição pública, tudo e mais alguma coisa e gente que nunca mais acaba à espera da sua vez.

Aproveitando o sol desta manhã, sentei-me numa esplanada vizinha e dediquei-me à escrita. Começaram os problemas. O espaço existente no verso da imagem do postal não é muito amplo e a mensagem tem de ser necessariamente resumida. Dizer em poucas palavras aquilo que numa carta poderia preencher duas ou três páginas. Controlar a caligrafia de maneira a que fique legível e que uma só palavra não ocupe toda uma linha. Além disso, há que ter em atenção que metade da cartolina é reservada à morada do destinatário e ao selo. Nada que não se ultrapasse. Com um pouco de esforço tudo se faz.

Café curto. Caneta na mão direita. Inspira fundo. “olá Maria! Espero que este postal vos encontre todos de saúde. Nós por cá temo-nos safado…” M@#%&#! Já não cabe mais nada! Postal para o lixo! Ainda bem que comprei uns a mais. “Olá Maria….” (…) “Beijinhos, Paulo.” Agora, é só dar uma lambidela no selo, colá-lo e… os selos agora são autocolantes! Não é preciso passar a língua!

Por essa hora, já muita gente circulava a pé pelo passeio da marina, aproveitando o bom tempo. Uma figura, contudo, se destacava: rapariga, jovem, de auscultadores na cabeça a passear o canídeo. Reconheci-a. Conhecemo-nos todos. Nem que seja de vista. A manhã continuou calma na avenida Álvaro Martins Homem.

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