Um passeio pela marginal.

É nas roliças curvas da licra da marginal da Praia que a vontade de sair à rua se espelha, ofuscada apenas pelo fluorescente que, ora verde, ora rosa, transforma os diferentes em iguais, como se fardados todos andassem, quais chineses ou norte-coreanos em parada celebrativa. Modas.

Se de antes o estilo era medido pela marca do fato de treino comprado na Base – o que era, desde logo, indicador de possuir via verde de acesso ao exclusivo território – agora, mercê desta obsessão pelo culto do corpo alimentado a proteína sintética e a smoothie biológico, agora, dizia, o importante é dar as carnes ao manifesto, bem embrulhadinhas em película aderente de cores garridas ou de simples preto luminoso.

Os fatos de treino de outrora eram multifuncionais. Bem ao jeito do prático sentido que americano que se preze tem. Americano de origem ou americanizado por contacto com as notas verdes retratando George Washington ou pela ingestão compulsiva de hambérgas, coca-cola e pina-bára com jello de uva. Serviam de pijama, de traje de ir às compras, de indumentária prática para andar em casa, acompanhada de chinelos brancos… uma manifestação de estatuto, portanto. Não era coisa para qualquer um. Havia-os em cinzento-claro, em rosa clarinho, em azul-escuro. Também serviam de fato de treino, claro!

A bela licra é mais seleta. Mais seletiva. Também não é para qualquer um. É coisa só para atletas, frequentadores de ginásio e caminhantes de fim de tarde. E, claro, é usada de forma parcimoniosa. Nada que se compare àquela parolice de andar sempre de fato-de-treino para todo o lado. Isso é coisa para suburbanos, gente das freguesias. Nós, os urbanos e modernos, sabemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e que a bela licra é para se usar nos locais certos. Ninguém vai às compras em fato de banho ou biquíni. Toda a gente sabe disso!

Dá gosto ver toda aquela gente a caminhar pela marginal, a andar de bicicleta, de skate ou de patins. Pese embora os muitos defeitos e incompreensíveis soluções adotadas, tem servido de forma elogiada a população local. Só é pena que não esteja ligada à escadaria de acesso à Santa do Facho ou ao paul. São muitas as pessoas que fazem a escadaria e muito poucas as que a incluem no seu trajeto ou lhe acrescentam o paul. Seria importante criar-se um corredor prioritário para peões e ciclistas que ligue o passeio da marina e o outro lado da estrada, em ambas direções. Não só o ambiente e a saúde agradeciam, mas também a dinamização da cidade. Assim também se constrói cidade! Paul, Santa e Marginal poderão ser um e um só espaço. Para quê dividir?

É inegável o conforto da vestimenta desportiva. Dá liberdade, dá frescura, areja, faz-nos sentir atletas, jovens, magros e elegantes… alimenta o ego e faz bem à auto-estima. No fim do percurso, logo depois da marina, estão estacionadas roulottes de comes e bebes. Há muito por onde escolher. Tudo saudável, é verdade. Vejam lá que a maioria das coisas tem alface, tomate, cebola e até cenoura dentro. As pessoas da Praia sabem já disso. Mas, para quem vier de fora, é importante esta informação e que saibam: se no fim do passeio quiserem galinha frita, convém reservar com antecedência!

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