Saudades do futuro.

O acender da chama olímpica num estádio pouco mais que vazio lembra-nos que os tempos ainda não são os de celebração. Melhor dizendo, é possível celebrar, mas em moldes bastante diferentes daqueles a que estávamos habituados. As coisas mudaram, pelo menos por agora. Melhores dias virão. Sempre vêm. A Humanidade já atravessou crises bem maiores do que esta, holocaustos de horror, tragédias humanas de escala imensurável, conflitos de efeitos devastadores. Tudo ultrapassou e nem sempre aprendeu. Ou, se aprendeu, tornou a esquecer. Vai ficar tudo bem, só não se sabe quando. Até lá, resistir, persistir na prevenção. Não deixar espaço para que o vírus da COVID e outros de rosto humano o ocupem. Ao primeiro, haverá sempre uma vacina, uma máscara, um tratamento médico, mesmo que não eficazes na totalidade absoluta da cura, mas que mitigam a sua ação e o vão controlando na medida do possível e do conhecimento científico. Em relação ao segundo vírus, aquele de rosto humano, a sua forma de infetar é bem mais sub-reptícia, mais lesmosa, mais maleável, contorcionista e com mais aliados, tornando-se mais difícil de combater e erradicar. É um vírus que não tem medo de máscaras. Pelo contrário, usa-se delas. Mascara-se e aproveita a sua semelhança a açaime. Sabe que, com açaime ou sem ele, a fúria há muito está contida, também a ira dos distraídos mortais e as mordidelas acauteladas, mesmo quando necessárias ou em legítima defesa. Um açaime que silencia e amordaça.

Sem público não se ouvem aplausos nem ovações. Sem público não se ouvem apupos nem os coros das claques. Sem público perde-se o efeito da partilha na experiência.

A cerimónia de abertura do Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 em 2021 não teve o mesmo brilho das anteriores. Faltou-lhe gente. Faltaram-lhe as pessoas. Para além das bancadas vazias, as grandes comitivas de atletas vindos de todo o mundo, a ocuparem todo o relvado, naquele momento de unidade universal que só os Jogos Olímpicos conseguem criar, não estavam lá. Não houve festa. Apenas fogos de celebração breve. Estou a ser ingénuo, eu sei. Mas, hoje, quero acreditar nisso. Nessa utopia do “imagine”, do “wonderful world”, do “we are the world”, do “I believe I can fly”, do ser possível construir um mundo melhor, mais justo, mais igualitário, mais saudável e mais equilibrado.

A mensagem dessa noite inaugural foi transmitida com a simplicidade minimalista a que os japoneses nos habituaram. O Japão poderia ter desistido, mas não o fez. Poderia ter insistido em manter tudo como era para ter sido, mas preferiu ser humilde e adaptar-se à conjuntura atual, mantendo, contudo, o essencial. Pequenos gestos e muito simbolismo. Uma mensagem de universalidade, multicultural e inclusiva. Diversidade. Não faltaram a exaltação da tradição pátria, das grandes realizações nipónicas, do orgulho nacional. Tóquio quis mostrar ao mundo que preserva o seu passado, que vive com ele e o mantém presente. Que cultiva os valores do tempo atual. Este país de tradição milenar é conhecido pela forma como vive e celebra os seus costumes e tradições. Os mais velhos. A sabedoria ancestral. Os seus antepassados. Mas é também o país que não tem medo de inovar. E como inovam! É o país que criou os primeiros pictogramas das modalidades olímpicas, hoje algo tão vulgar; que uniu, nesta cerimónia, intérpretes dos cinco continentes para cantarem Imagine de Yoko Ono, japonesa; que não teve quaisquer pruridos em, no mesmo palco, apresentar uma atuação conjunta de um ator de teatro Kabuki (coisa sagrada na tradição japonesa) com uma pianista de jazz, Hiromi Uehara e que mostra todo o seu potencial tecnológico no momento Misha da cerimónia quando, sobre o estádio olímpico de Tóquio, 1800 drones sincronizados formaram o globo terrestre em movimento de rotação. Simplesmente avassalador. Inovação tecnológica, tradição, modernidade, cultura, diversidade. Do Japão fizemos do consumo do sushi um ato de afirmação civilizacional e de modernidade. Esquecemo-nos, contudo, de aprender o mais importante: conseguir fazer coabitar tradição e contemporaneidade, a tratá-las de igual para igual, a saber que a existência de uma não provoca o desaparecimento da outra, a inovar, a criar, a respeitar o passado, a não ter medo da diferença e do futuro.

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