Rua de Jesus – um regresso.

A procura de soluções para a revitalização do chamado centro histórico da Praia – a rua de Jesus, entenda-se – já leva mais de uma década de discussão, pelo menos. Entre abrir ou fechar a rua, apoiar diretamente o comércio, reabilitar o edificado ou acabar com os parquímetros, a discussão não sai muito daí. É compreensível. Talvez seja simplesmente a vontade de reerguer uma Praia que romanticamente existe no nosso imaginário, num outro tempo, e gostaríamos voltar a ter. Essa cidade não existe mais. E não poderá voltar a existir, pelo menos nos mesmos moldes. A conjuntura é outra. As pessoas são outras. O mundo mudou. As pessoas, também, e as cidades deveriam ter acompanhado essa mudança. Algumas não o fizeram, coladas que ficaram aos modelos do passado, incapazes de se renovarem, de se adaptarem às novas realidades, exigências e, até mesmo, oportunidades. Eu próprio, no que vou publicando sobre o tema, tenho enfermado no mesmo erro.

E que erro é então esse? Sistematicamente se tem confundido “centro histórico” com “centro de atividade comercial e administrativa”. Há muito que não é nem uma coisa, nem outra.

O hipermercado Modelo e o então Super da Luz foram inaugurados na década de 1990, a rua cidade de Artesia dinamizada algures pelo mesmo período e o Fórum Terceira, mais recente, foi resultado de aproveitamento de oportunidades por parte da dinâmica empresarial existente no concelho, o que se louva e que mais houvesse. Todos estes investimentos e iniciativas transformaram a cidade. Ganharam os praienses, fizeram crescer a malha urbana, criaram novos polos de dinâmica empresarial e comercial, criaram emprego e trouxeram maiores receitas fiscais para o Município, algo que não deve ser subestimado. Isto só para falar, claro, do que de mais próximo existe à rua de Jesus. Neste período, a Praia ganhou ainda uma escola secundária e uma profissional.

Descentralizaram-se, também, os serviços. Isto já no século XXI. As pessoas deixaram de ser obrigadas a vir à cidade, facilitando-se-lhes a vida. Poupando-lhes as deslocações e o tempo. De todo modo, se tal não tivesse sido feito, a revolução social provocada pela internet encarregar-se-ia disso. Se duvidam do que aqui escrevo, pergunto-vos: quando entraram no banco pela última vez? Nos correios? Nas finanças? Na EDA? Na Câmara? E, já agora, qual o peso das vossas compras on-line no total do consumo? O mundo mudou e a cidade não quis perceber isso.

Centro histórico deixou de ser sinónimo de atividade comercial ou edifícios destinados exclusivamente a pessoas sentadas em secretárias. Antes pelo contrário, os centros históricos da era da sustentabilidade ambiental deverão, isso sim, ser o centro da dinamização cultural, social e cívica da urbe. Um lugar onde se promovem exposições, feiras, espaços de lazer, centros de cultura e aprendizagem e onde as pessoas – praienses e visitantes do mundo – possam sentir-se bem, disfrutar das coisas boas que só uma cidade pequena como a nossa tem para oferecer e sentirem-se, elas próprias, construtoras de cidade, agentes de uma identidade que se quer preservada, mas sem medo da sua sombra. Claro que há lugar para o comércio. Tem de haver. Para os cafés. Para as esplanadas e para os serviços. Mas não adianta olhar para trás. Para alegadas soluções do passado que só servem para agradar os usufrutuários diretos. Um exemplo: de que serve transferir os serviços municipais todos para a nossa praça principal, para o nosso Rossio? A experiência mostra-nos que à volta da Praia Ambiente nada se alterou e que, aquando da presença dos serviços na rua Gervásio Lima (Trás-do-Curral), os resultados foram nenhuns.

Ao conjunto Casa do Dr. Eugénio/antiga biblioteca pede-se mais. Os dois edifícios podem transformar-se num só e serem o Museu da Cidade, que tanto precisa e, isso sim, constitui uma prioridade cultural e identitária ou então uma incubadora de artes, um tecnopolo ou um centro de agregação da atividade associativa, mas não daquelas que só funcionam uma tarde ou uma noite por semana. Querem-se associações com projetos, com razão de ser e com dinâmica.

A Praia não pode continuar a ter medo de si e a ficar à espera que o passado volte. Eu não quero que o passado volte. Já lá foi. Já lá está. As recordações são boas. Esqueci-me das outras. Agora, quero que o futuro também aqui chegue. Quero que a minha cidade ande para frente. Quero que os meus filhos queiram, também eles, aqui ficar. A nós, cabe-nos não ser egoístas e fazer por isso. Fazer com que esta terra não perca a sua magia e o encanto que nos fez escolher aqui ficar.

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