Cidade sem passado é cidade sem futuro.

Há uma cidade sem museu. Uma cidade que se orgulha do nome que ostenta, que poderia agradecer a Garrett, homenagear D. Pedro IV e D. Maria II, questionar-se da razão por que Francisco Ornelas da Câmara teve de comprar a Capitania da Praia ou saber que Altares e Raminho já pertenceram ao concelho, transitando depois para o da Vila de São Sebastião, e, só depois, para o de Angra. Uma terra cuja fundação remonta ao século XV, mas que esgota as suas comemorações nos feitos dos séculos XX e XIX, sendo que, relativamente a este, se limita a uma evocação dos militares que perderam a vida nas guerras… do século XX.

Uma comunidade, uma cidade, um território, não pode limitar-se a comemorar aquilo que alguns vivos têm memória ou tido participação ativa nesses eventos. Aliás, muitas vezes usados como branqueamento de ações ou criando protagonismos nem sempre condizentes com a verdade dos factos. É perigoso e não é de todo recomendável. Falta-lhes o distanciamento temporal que nos permita avaliar com isenção o que realmente aconteceu, as suas consequências e encontrar testemunhos daqueles que, tantas vezes, o sistema silencia. História escrita pelos seus protagonistas, nunca foi prenúncio de coisa boa. A verdade é que não temos memória.

A este propósito, basta vermos a inenarrável entrevista dada pelo atual presidente da autarquia praiense a um canal de TV on-line, onde o senhor revela um avançado estado de alienação, falando de uma realidade muito longe da vivida pelos restantes habitantes do concelho, fazendo o balanço de quatro anos de mandato onde o ego se sobrepõe às equipas e às pessoas, onde a demagogia e o populismo, com recurso aos chavões baratos da família, como se os demais não a tivessem nem se preocupassem com ela, do sacrifício pessoal, como se o exercício do cargo de presidente de câmara fosse uma imposição dos deuses maus, onde toda esta retórica ensaiada de cartilha André Ventura, se sobrepõe à clareza dos tristes e perdidos anos. Em cerca de duas horas, procurou limpar o desastre que foram estes tempos, ignorando falhas, chamando a si êxitos em trabalhos para os quais não lhe são reconhecidas competências técnicas e políticas. É o próprio que o reconhece no momento da despedida. É o próprio que, afinal, é o suprassumo da batata, um talento desperdiçado em cargos menores como o que ainda desempenha. Autoelogio em exagero, uma tentativa falhada de encontrar um legado que o permita ficar na história. Ficará, mas não pelas melhores razões. Não bastasse tudo isto, depois da despedida emotiva, ainda vieram as vinganças pessoais, os saneamentos de todos quantos não alinham pela mesma cartilha. Mas sejamos justos, tudo isto só aconteceu porque alguém o permitiu. Ao longo destes quatro anos, à exceção de Paula Ramos, não houve um único vereador a bater com a porta, um único dirigente do Partido Socialista a levantar-se publicamente contra este estado de coisas, um único militante dependente do sistema a dizer, alto e bom som, isto assim não pode continuar. E teria continuado, caso não tivessem ocorrido as inesperadas mudanças regionais de há um ano. Bem vistas as coisas, a escola era a mesma.

Mas mudemos de tema. Havia prometido a mim mesmo que não mais falaria sobre este assunto. Só que a volta ao meu sistema nervoso que a aquela entrevista me provocou, não permitiu que permanecesse calado.

Não temos memória, era este o ponto. Apesar dos já muitos trabalhos levados a cabo pelos historiadores, o cidadão menos dado à leitura de ensaio, desconhece o nosso passado enquanto comunidade com mais de cinco séculos de existência. A causa de sermos, de aqui estarmos, de termos seguido o caminho que nos trouxe desde o povoado fundado por Jácome de Bruges no Belo Jardim até à Praia da Vitória dos dias hoje. Urge a construção na cidade de um museu. Não de uma sala com cartazes e fotografias e chamar-lhe museu. Um museu a sério. Moderno, interativo, com tecnologia do século XXI, contando a história do século XV até aos nossos dias.

A Praia não precisa só gostar de si, precisa conhecer-se e projetar-se. Olhando para esse passado distante, mas com os olhos postos num horizonte ainda por descobrir. Precisamos sonhar. De utopias. Só assim é possível construir futuro.

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