Palco de intrigas.

Palco de calculismos, cidade fadada para benefício de terceiros. Tem sido esta a sua sina. Deve o seu nome a uma destas lutas. Orgulha-se disso. Ganhou um título e deu-se por satisfeita. Mas de que vale um título? De que valem as honrarias se as benesses são colhidas por outros? De que vale ter acesso a um lugar da primeira fila, a uma prioridade no protocolo, se as joias são emprestadas? Vale muito. Valerá muito. Para muitos, sim.

Usada e abusada, nunca lucrou com isso. Dá lucro, mas numa espécie de conta poupança a ser resgatada por outros, quando e onde mais lhes aprouver. Impávida, distraída com o foguetório, deixa-se manipular. Julga que não. Insiste que não e embarca em cantos simples e ilusórios de aparentes salvadores que sempre estendem a mão nas aflições por eles provocadas.

Tornou-se campo de batalha. Uma arena onde se medem forças que em nada lhe dizem respeito. Não percebeu que pouco mais é do que uma espécie de marioneta nas mãos de manipuladores e calculistas. O estatuto que a geografia lhe deu confere poder a quem melhor a controlar ou, pelo menos, a quem melhor consiga parecer que a controla. A cidade é um troféu, uma espécie de medalha que se coloca ao peito sempre que a ambição individual fala mais alto. E como grita…

Livrar-se desta teia de dependências fictícias seria o equivalente ao quebrar de uma relação tóxica em que a vítima é recompensada com a oportunidade de construir uma nova vida. Seria todo um novo manancial de portas que se abririam, novas oportunidades, novos projetos. Não é assim tão simples. Não é assim tão fácil o abusado livrar-se do abusador. Da sua teia. Da sua presença permanente. Da sua influência. Da sua pressão constante. Da sua sombra eternizada. E fica… e vai ficando…

Há um salto a ser dado. Uma vontade própria que precisa afirmar-se. Emancipar-se. Uma carta de alforria que permita à cidade ganhar asas e aventurar-se pelos seus próprios caminhos, assumindo as consequências das suas opções. Crescendo. Ganhando maturidade. Tornando-se adulta.

Daqui por dias, o concelho vai ser palco de uma das mais disputadas eleições da sua história democrática, num contexto completamente novo, que lhe é estranho, com um desfecho imprevisível e que, no limite, pode levar à sua ingovernabilidade. A Praia não está em condições de correr esse risco. Não pode dar-se a esse luxo. Por isso, a participação nestas eleições afirma-se mais importante do que nunca. O poder, ainda, está nas mãos do povo. Esquecemo-nos disso. Fazem-nos crer nisso.

Depois de D. Pedro IV ter derrotado o irmão Miguel na batalha da Praia, Pedro foi para Angra e devolveu o trono à filha Maria. A miúda, inspirada por Garrett, atribuiu um título à então vila e a vila ficou contente. Vitória. Pouco tempo depois, fizeram as malas e foram para o continente. E foi isso… os irmãos vieram cá fazer uma briga, resolveram as suas cenas, e pegaram e andaram. E é isso. O nosso fado. Um palco de ajustes de contas.

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