Sulfato de aerossóis das areias do vulcão do Saara.


Existem discussões deveras interessantes, mesmo que uma pessoa não perceba patavina daquilo que estão a dizer.

Na semana passada, a ilha Terceira acordou envolta por uma névoa que lhe era estranha. Uma espécie de nevoeiro baixo que dificultava a visibilidade, mas que proporcionaria uma multiplicação de fotografias nas redes sociais, agora sem filtros, até porque a névoa fazia esse papel. Percebia-se não se tratar de nevoeiro. Embora leigos nos temas da atmosfera do clima, em outros somos todos especialistas. Começaram a aventar-se hipóteses: cinzas do vulcão das Canárias, de La Palma, não de Las Palmas; areias do deserto do Saara ou, quem sabe, cinzas de papel queimado, fruto da conjuntura. Nessa altura pensava-se que o fumo/nevoeiro tivesse poiso só aqui nas bandas da Praia. Cheirava a esturro e as respostas não foram imediatas.

Entretanto, nas redes sociais, surgiu Félix Rodrigues (fazia tempo que não o víamos) explicando tratarem-se de areias do deserto: “O Grupo Central do arquipélago dos Açores esteve hoje “cheio” de poeiras do Saara. As concentrações de partículas são muito elevadas, especialmente as finas.” Depois, veio o IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera): “O aerossol sulfato resulta da reação em fase líquida do dióxido de enxofre com a água, constituindo pequenas partículas líquidas (…); mas as previsões apontam para concentrações específicas entre 0.8 e 10 µg/kg.” Seguidamente regressou o Professor Félix a dizer: “Sendo poeiras do Saara, há imensas partículas grosseiras na proximidade da fonte que vão caindo pelo caminho, ficando em suspensão apenas as partículas finas. Como varia a concentração das PM10 ao longo da trajetória? Passam de 115, para 73 e finalmente para 37 microgramas por metro cúbico nos Açores, perfeitamente compatível com as finas e poeiras do Saara.” Até que enfim, alguém com uma explicação clara e inequívoca!

Confesso que tinha saudades destas discussões científicas sobre temas que não domino, nem tão pouco posso tomar partido, o que é pena. A falta que fazem as trocas de argumentos sobre os achados megalíticos da Grota do Medo, as estruturas ancestrais das serras do Cume e da Ribeirinha, o columbário das Lajes, os hipogeus do Monte Brasil ou as milhentas relheiras que nascem na ilha como se de cogumelos se tratassem. Parece que, de um dia para outro, a paixão imbuída na polémica se reduziu a isso mesmo: a fugaz entusiasmo sem consequências visíveis.

Ao escrever sobre este passado distante, dou por mim a ser apoderado por um sentimento de nostalgia galáctica, como se regressasse a uma antiguidade muito antiga, do antigamente, do tempo em que nasciam faraós na Terceira, em que esta ilha redondinha achatada era o ovo cósmico, berço de civilizações construtoras de pirâmides e que só sabiam desenhar pessoas como se fossem pega-monstros espalmados contra uma parede. Volta Fernanda Durão Ferreira, estás perdoada! (para quem não se recorda desta senhora, façam uma pesquisa nos vossos motores de busca preferidos…) Ao menos contigo, Fernanda, a coisa era divertida. Agora…

Esta terra nunca mais foi a mesma. Agora tudo é calmo e pacato, com as questões do passado distante entregues à plenitude da vontade de Deus, em paz, silêncio e introspeção, como se quer e convém. Tive o privilégio de ver e ler pareceres e ensaios laboratoriais de especialistas na área da arqueologia e datação de materiais. Que destino terão tido? A que conclusões permitiram chegar? A coisa ficou-se por aqui? Que património é esse? Que histórias escondem?

A poeira ou os aerossóis assentaram. Ou, pelo menos, terão seguido outro rumo que não a fixação permanente nos Açores. Ninguém sabe quando terminará a erupção vulcânica nas Canárias. O que sabemos é que estará para breve uma nova erupção, com localização bem definida, e, estou certo, com muita cinza a contaminar o ambiente. Que seja rápida… e indolor.

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