Há uma revolução a fazer na cultura.

Há uma necessidade urgente de o salto cultural ser dado nos Açores. Uma espécie de revolução cultural onde o passado é respeitado e preservado, mas onde o futuro deverá estar presente. Arriscar novas linguagens, novos públicos, seguindo novos modelos e formas de arte. Em suma, deixarmos de ser os conservadores do costume, a que nos habituámos a ser, e olhar em frente, acompanhando o progresso civilizacional e as tendências da modernidade deste século que, embora iniciado há duas décadas, tarda em afirmar-se. É uma generalização, eu sei.

Felizmente, aqui e ali, mais ali do que aqui, muitos são aqueles que, com o seu esforço e tenacidade, vão procurando desenvolver trabalhos que rompem com o estabelecido como identidade local, tido como “nosso”, como açoriano ou terceirense. Trabalhos que revelam uma outra identidade. Uma forma de ser e de estar que, não respeitando os cânones do conservadorismo oficial e que não dá mais do que isso, também é a nossa forma de ser e de estar, mas no século XXI, verdadeira, honesta, sem querer enganar ninguém, simplesmente refletindo a vontade e a identidade dos novos açorianos, aqueles que não querem permanecer fechados ao mundo, aqueles que não se fecham em si próprios, aqueles que não querem ficar amarrados a um passado que nem sempre existiu, que se fantasiou e romantizou, que respeitam, mas que não se deixam sufocar por ele.

Há uma revolução a ser feita. Um conservadorismo a abandonar. Sem medo.

Sem medo de deixarmos de ser quem somos. Isso não acontecerá. Se, por hipótese, tal acontecer, algo no presente está errado. Algo no passado não é verdadeiro. Alguma coisa não passou de pura ficção, de pura construção de uma identidade que, afinal, nunca terá existido. É o preço a pagar pelas fantasias da propaganda. Da criação forçada de alegados ritos e tradições, tantas vezes existindo há meia dúzia de anos e que assumimos terem existido desde o povoamento ou um pouco mais adiante. Não há que ter medo do futuro. Do progresso, da evolução. Parecemos, por vezes, aqueles que tinham medo da luz elétrica, do automóvel, do avião, da obra do demónio. Daqueles que acreditavam que as telenovelas seriam a perdição da sociedade e a internet o princípio do fim da humanidade.

Se sempre foi assim, assim terá de continuar a ser.

São dezenas os artistas plásticos, as gentes da música, da dança, do teatro e das letras que vivem nesta terra e que, com dificuldade, desenvolvem a sua arte. Muitos, fazem-no em casa, nos seus ateliers, à porta fechada, sem que ninguém os conheça ou valorize. Outros, por sua própria iniciativa, organizam eventos por forma a poderem dar asas à sua criatividade e mostrar a sua obra. Há, ainda, quem, em pequenos núcleos, mais ou menos afastados do olhar do público, constroem, produzem cultura, procurando contribuir para o crescimento cultural dos próprios, dos mais próximos, e do mundo que vão construindo. Tudo é feito com muito esforço, muito trabalho e entrega, muitas vezes a troco de nada. Todos eles, mesmo sem apoios, fazem arte, criam identidade, são os nossos agentes da cultura, os nossos passaportes para o futuro.

Ninguém lhes agradece. Mas são eles os construtores desta nova realidade, desta nova forma de ser açoriano e, porque não, desta nova identidade.

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