E não nos deixeis cair em tentação…

Desconhecia por completo o significado da palavra “anátema” da primeira que a vi. Como haveria de conhecer, se era a primeira vez? Estava grafada na capa de um livro, numa das prateleiras da Loja do Adriano, que eu frequentava amiúde, só para poder estar no meio dos livros, conhecê-los melhor e tomar nota mental dos autores e dos títulos. Esta palavra estranha, mas de sonoridade curiosa, era acompanhada por uma ilustração pouco convencional de temática que não me era familiar: um punho erguido de látex preto, segurando um crucifixo, e de unhas pintadas de vermelho – RAL3020. A imagem era poderosa. Comprei o livro. Ainda hoje o tenho. Nunca o li.

A possibilidade de condicionar o pensamento e a opinião dos outros é tentadora para quem tem o poder nas mãos ou, pior, para quem está próximo dele, por ele amarrado ou de quem se sente obrigado a provar lealdades tantas vezes questionadas. A liberdade de expressão e de pensamento não são conquistas alienáveis, mas frágeis, se os criticados revelarem incapacidade de as ouvir e aceitar, mesmo não concordando com elas.

Nos dias que correm, o exercício dessa pressão condicionadora pode ganhar contornos preocupantes. Com o avanço tecnológico e a facilidade nas comunicações, os meios para o fazer podem ser muitos e bastantes subtis. Contudo, apesar disso, ainda pode haver quem o faça de forma descarada, sem qualquer problema em assumir que o faz, julgando que o alvo ficará a tremer de medo e não contará nada a ninguém com medo de eventuais represálias. O problema é que os mesmos meios são aqueles que permitem, também, o “tudo se sabe”. E não é preciso muito tempo para que se saiba quem telefonou a quem, quem fez um comentário numa rede social, quem recebeu uma mensagem no telemóvel, no Messenger ou no whatsapp. Tudo se sabe e a notícia rapidamente se torna viral. E de pouco valem os desmentidos.

Já levo alguns anos de proximidade à atividade política e de exposição pública no que à opinião diz respeito. Conheço muitos relatos de tentativas de pressão, de procurar condicionar opinião, de silenciar. Pessoalmente, por mais de uma vez, fui alvo desse tipo de assédio. Por mais de uma vez, resisti e reagi da forma como entendi ser a mais apropriada para o método e para o momento, sem nunca ceder. Houve consequências: pessoais, profissionais, políticas. Mas houve, acima de tudo, a certeza de que estava a seguir no caminho certo. O caminho da liberdade, de pensar pela minha própria cabeça, da consciência livre e de saber estar a contribuir para que outros também possam ter uma opinião sem medo.

Nestes novos ciclos – regional e autárquico – quero crer que práticas como estas possam ser só meras recordações de um passado que não se quer repetir. Que práticas como estas não se tornem nem hábito, nem rotina, justificadas pelos maus exemplos vindos de trás. “Se eles fizeram, nós também podemos fazer!” Não, não podem. E se a isso estão tentados, o melhor é voltarem aos vossos empregos de origem, pois estão a prestar um mau serviço à Região e à Democracia, não servindo para a posição que ocupam.

Numa entrada que encontrei na internet, fiquei a saber que “Anátema” foi a primeira novela do autor de “Amor de Perdição”. Referindo, ainda, que, nessa obra, já eram bem visíveis aquelas que seriam as suas imagens de marca: a intriga folhetinesca e as ideias de providência, vingança e expiação. Não caiam nessa tentação…

…mas livrai-nos do mal.

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