Here comes the sun.

A máscara voltou a ser um incómodo. Em bom rigor, nunca foi uma coisa que nos deixasse confortáveis. Mas, a necessidade do seu uso e o hábito criado, fez com que passasse a ser algo com o qual começámos a lidar com a normalidade agora chamada de nova. Contudo, com o desconfinamento a ser aplicado a cada vez mais setores da nossa vida em sociedade, o seu uso tornou-se intermitente e, como tal, umas vezes usamos máscara, outras não, outras não sabemos se sim ou não e, outras ainda, não percebemos a necessidade, tantas são as contradições. Daí o incómodo, uma consequência da confusão.

Nos bares e nos restaurantes, ao que percebo e aplico, já não é preciso. Nas escolas sim. Nas salas de espetáculo, também. E os toiros são à fresca.

Já não os via há muito tempo. Aquele grupo de pessoas que desde sempre te habituaste a ver e a conviver sempre que eventos culturais, particularmente musicais, tinham lugar na Praia. Tinham e, desconfinados, têm… Eu é que ando meio arredado de tudo. Fruto das paternidades em cadeia e, depois, da pandemia, saí do circuito das saídas à noite. A verdade é que os encontrei todos juntos novamente, com a alegria e a vivacidade com que habitualmente estão. Vivendo.

No palco do Blues, a Maria e o Luís animavam a noite de sábado, cantando os temas que já conhecemos e que nos fazem cantarolar, fazendo-nos pensar que somos cantores de mão cheia, com vozes sublimes dignas de participarem nos concursos de talentos televisivos. Creep, dos Radiohead, foi o ponto de viragem. O tema que mais gosto de ouvir cantar na voz da Maria. Aquela canção que puxa pelo “desajustado social” que há em cada um nós. Incompreendidos, inadaptados, marginais que usam uma máscara para que possam ser aceites pelos seus pares. Gostamos de ser assim. Marginais entre iguais… ou parecidos. Todos temos um pouco disso. Todos somos como que atores neste palco gigantesco, em frente a um público exigente que espera de ti aquilo que eles próprios não querem, não conseguem ser, e têm pena de não ter a coragem necessária para que creep seja sinónimo de identidade e autenticidade. Há quem prefira ser a cópia. E como é usual dizer-se, ela é sempre pior que o original.

Houve lágrimas. Os personagens deram lugar às pessoas e os ausentes foram recordados. Ninguém pronunciou os seus nomes. Ninguém ouviu as suas vozes. Mas eles estavam ali, na memória das alegrias de quem os conheceu.

O Miguel Ângelo fez as habituais honras da casa. Conhece-nos há muito e há muito que não nos via a ser frequentadores noturnos do seu bar. Os manos Ázera sabem como receber os amigos. E aquele bar que não é o Cheers, mas é o Blues, é um ponto de encontro de amigos. Estavam lá muitos. Já sentia falta de toda aquela gente. Da animação. Das caras conhecidas, mesmo que nunca lhes tenha dirigido palavra alguma, mas que sempre fizeram parte da minha vida. O regresso do velho normal.

Chegada a hora, foi tempo de partir. Poucos metros depois de me ter sentado ao volante do meu carro e começado a conduzir, uma operação stop. Teste de álcool. Soprar o balão. Os guardas estavam de máscara.

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