Armar Barraca.

Há um acampamento ao estilo cigano a nascer junto ao estádio municipal da Praia. Aquilo que começou por ser uma ou duas roulottes/tascas de comes e bebes, rapidamente apareceu apetrechado de cadeiras e mesas, em jeito de esplanada, com frequência e afluência razoáveis, dando àquela zona da cidade uma cor e movimento dignos das festas que não temos tido. Uma oportunidade para ajuntamentos e convívio, tão desejados que têm sido nestes tempos de jejum e abstinência colmatados pelos pecadilhos à porta fechada. Virtudes públicas, vícios privados, é uma expressão tão antiga como o faz o que eu digo, não faças o que eu faço, ou o põe a máscara que estão a filmar. Mas isto são outros quinhentos que nos levariam ligação direta a cenas de sacristia medieval, com direito a perseguições e autos-de-fé, em pleno século XXI, ali para os lados da igreja da Conceição, num belo palacete rosa com torrinha onde, por este andar, começaremos a ver donzelas e donzelos desesperados a gritarem por socorro, na esperança de verem o inquisidor-mor deportado e devolvido à sua origem, quisesse a origem recebê-lo de volta. Nesse dia haverá festa, arraial e foguetes no ar. O povo sairá à rua. O rei faz anos. Viva a República!

Entretanto, os dias começaram a ficar mais pequenos. Mudou a hora e o tempo arrefeceu e a chuva chegou. Esplanadas deixaram de ser locais apetecíveis. Havia que encontrar uma solução. Mais rápido ainda do que encontrar novas lideranças na oposição, os proprietários daquelas startups do setor da restauração e bebidas, arrepiaram caminho e, logo logo, investiram, inovaram, criando espaços cobertos, fechados, com menos de quatrocentos metros quadrados para que não seja obrigatório o uso de máscara e, voilá!, à entrada do acesso ao estádio municipal da Praia, é criado um recinto de comes e bebes, com estruturas mais ou menos fixas, parque de estacionamento, só faltando os carrinhos-de-choque e a roda gigante para que se transforme num parque de diversões. Em bom rigor, a avaliar pela movimentação automóvel a determinadas horas do dia, aquilo já é recinto de grande divertimento. É só rir. Caso para dizer: onde para a polícia?

Há que pôr mão naquilo antes que tome proporções de não-retorno. As tascas e as roulottes são bem-vindas, mas com regras, enquadradas, com disciplina. Não podemos correr o risco de se criarem autênticos bairros clandestinos, de subúrbio asselvajado, sem rei nem roque, terra de ninguém. Aquilo começou por ser uma pequena roulotte a vender umas bifanas e umas cervejas. Atrás da primeira veio a segunda e atrás da segunda virão quantas quiserem. Por que razão se hão de negar licenças às próximas? Que privilégios terão os primeiros? Têm mais direitos? Não tarda, chegam os vendedores ambulantes na esperança de fazerem crescer o seu negócio. Quem lhes poderá negar uma autorização? À novel presidente faço um apelo: ponha mão nisto. Não é este o caminho.

É preciso estancar a infeção o quanto antes. Antes que ela se espalhe e se transforme numa pandemia descontrolada sem vacina eficaz, sem máscara que a valha, sem álcool gel que a desinfete. Lavar as mãos, nesta situação, não é remédio. Aqui, sacudir a água do capote é só agravar o problema. Antes que seja tarde, deitem a mão no Silveira e Paulo. A coisa parece estar a fugir do controlo. A barraca está armada.

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