Bico de obra.

O Cristiano é bom de mãos. Faz trabalhos de pintura, é um perfecionista no pladur e no papel de parede, assenta azulejos e louças de casa de banho como ninguém e arranja o que for preciso, desde que não tenha de passar recibo. Ele e a sua equipa de dois ou três amigos, conforme a dimensão do trabalho, remodelam uma casa em pouco mais que um fim de semana. Fazem-no barato. O Cristiano está no fundo de desemprego, o Leonel e o Márcio no rendimento social de inserção. Um extra que compensa.

A Luciana, dois anos mais nova que o marido, fez a sua formação em restaurante/bar na escola profissional da Praia. Acabado o curso, arranjou emprego num restaurante de um hotel em Angra. Não lhe pagavam mal e as gorjetas compensavam os custos da gasolina. Os horários eram complicados e raramente chegava a casa antes da meia-noite. Despediu-se. Ainda passou por caixa de supermercado. Vencimento baixo. Passado algum tempo, num baby shower em casa de uma vizinha, uma amiga do tempo da profissional, indignada com a condição da Luciana, perguntou-lhe se ela já tinha falado com o Gabriel. Sabia quem ele era.

O Gabriel, nessa altura, era líder da juventude partidária da mó de cima. Tirou lá fora uma licenciatura numa ciência política ou internacional ou animador social, talvez mestrado, e rapidamente conseguiu um emprego na câmara municipal. Não consegui apurar se eram recibos verdes, se era contrato, se era outra coisa qualquer. Só se sabia que era algo de bastante opaco que só mesmo uma mudança de responsáveis teria a capacidade de apurar. Saiu-se bem, enquanto durou.

A Luciana falou com o Gabriel. Nesses mesmo instante, assinou o formulário de adesão ao partido. Na semana seguinte, já trabalhava numa das instituições satélite da autarquia, aquela onde tudo cabe. É desconhecida a sua função, mas deixou de servir à mesa, de usar farda, de cheirar a comida. Continua a chegar a casa para lá da meia-noite. Na freguesia, agora, dizem que ela arranjou um emprego muito bom, trabalha na câmara. Subiu na vida. Ganha menos. Já não vai à missa.

A falta de mão de obra em setores como a construção civil ou a restauração tornou-se um problema, mesmo numa terra como a nossa, onde as oportunidades são poucas e o emprego, particularmente no setor privado, não abunda. As queixas dos empresários são constantes e longe de serem solucionadas. Restaurantes existem que já nem conseguem ter serviço de almoço e jantar e os empreiteiros optam por recorrer a mão de obra estrangeira.

Não há emprego. Falta mão de obra.

A Luciana e o Cristiano compraram casa que remodelaram com a sua própria mão. Têm um híbrido e o primeiro filho já vem a caminho. Com as recentes mudanças políticas, percebeu-se que o emprego arranjado pelo Gabriel, afinal, não assegurava qualquer tipo de vínculo à autarquia. A Luciana voltou a ficar desempregada…

Quanto ao Leonel e ao Márcio, mantêm-se solteiros, a viverem no sótão da casa dos pais, e não querem responsabilidade. Entre RSI, trabalhos com Cristiano e outros biscates, o dinheiro vai dando para as suas extravagâncias e isso é o que importa.

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