Por caminhos e canadas.

Uma missão, uma caminhada ou uma peregrinação? A princípio pareceu-me vir a ser um confrangedor bater à porta, dizer ao que vinha, recolher o dinheiro, botá-lo na saca, tomar nota do nome, morada e montante, agradecer, sorrir, e continuar o caminho até à porta seguinte, na esperança de também esta se abrir. Agradecer.

Foi mais do que isto. É muito mais do que isto.

Bater à porta, nem precisar dizer ao que se vai… entrar para a sala. Para aquela sala só usada em ocasiões especiais. Com os móveis de casa de avó. O cheiro. As cores. A luz. Os bibelots que aprendeste a não tocar. O serviço de jantar que terá sido usado uma única vez, se tanto. As fotografias dos netos na parede. O casamento dos filhos. A fotografia pouco nítida dos pais. O tempo estagna. A humidade apaga a memória. A casa está vazia e os fantasmas acotovelam-se na ânsia de ganhar espaço.

A maioria são mulheres. Sozinhas. Viúvas quebradas pelas maleitas próprias da idade. Beijam o símbolo do Espírito Santo. Não há como impedi-las de o fazer. Os olhos lacrimejam. A emoção rouba o momento. Com a mão trémula, fugidia, procuram no bolso o lenço amarrotado de tanta lágrima enxugada. Como quem esconde uma vergonha, baixam o rosto e passam-no pelos olhos na esperança de nós não nos termos dado conta daquele momento de fraqueza.

Esses olhos, quando se levantam na nossa direção em busca dos nossos, vêm acompanhados de um sorriso que não quer ser triste, mas que rapidamente se desmancha. Percebem que percebemos e pedem-nos desculpa. Não faz mal. Contam-nos a sua história, a sua vida de solidão, a doença e as saudades. Partilham memórias, querem saber de nós. Quem somos. A maioria não nos conhece. A maioria sabe quem eram os nós avós. Sabe quem são os nossos pais. Abre-se um novo capítulo e falam deles. Falamos deles e choramos… ou quase choramos.

Esta caminhada transforma-se numa viagem ao passado. Num regresso a origens que desconhecíamos. Numa casa, oferecem-me uma fotografia do casamento dos meus avós maternos com uma dedicatória redigida pela mão do meu avô Vitor. A sua caligrafia é inconfundível. Perfeita. Foi ali o seu primeiro açougue. Aquela casa conheceu o meu avô ainda jovem, pouco tempo depois de ele ter vindo de Lisboa, de ter conhecido a minha avó Izilda, e ter decidido fazer das Lajes a sua casa, a sua terra. Contam-se histórias. Criam-se laços e há uma cumplicidade sem tempo.

A porta abre-se a desconhecidos. Nós, eu e a minha prima Tânia, somos os desconhecidos. Mas a fé e o respeito pelo Espírito Santo falam mais alto. ELE é o conhecido, o amigo a quem não se fecha a porta. O amigo que tem de entrar pela porta da frente, pela porta principal da casa, o que merece todas as honrarias. A princípio, falta de hábito, sentia-me como se fosse um intruso a invadir a intimidade das pessoas. Um desrespeitador do espaço sagrado que é a casa de cada um, o seu refúgio.

Ofereciam-nos o que beber e comer. Em algumas casas, a mesa já estava posta à espera daquela visita previsível, mas atrasada por causa do mau tempo. À saída, a mesma mão trémula, transparente e enrugada, de forma subtil, penetrava sob o napperon de renda que cobria o tampo da mesa da sala ou da louceira e, desse esconderijo secreto, retirava uma nota de euro, a oferenda, a ajuda para que o mordomo possa distribuir pão e vinho pela freguesia no domingo do Bodo. “No tempo do meu marido costumávamos dar mais. Agora é só o que posso”… e as lágrimas voltavam a espreitar. Não faz mal. Para nós é muito. Obrigado!

Vive-se com muita dificuldade. Há quem viva com muito pouco. Ainda se vive em barracas. Ainda se vive sem condições. Ainda há quem precise de ajuda. De muita ajuda.

São tantos, especialmente tantas, a viverem na mais profunda das solidões. Doentes à espera de milagres. Depressões à espera de consolo. Querem conversar, falar de si, dos que partiram, dos ausentes e dos que não chegam. Resta-lhes a fé. Uma fé profunda e inabalável. Quem tivesse tantas certezas…

No momento da partida, desejavam-nos sorte na nossa missão e que o Espírito Santo nos acompanhasse e protegesse. Retribuíamos e ficávamos gratos. Agradecidos pela experiência e pela viagem interior que nos proporcionavam quando, da voz de toda aquela gente, se expressavam relatos que espelhavam a nossa própria realidade, a nossa vida, os nossos medos e as nossas falhas.

A opção de aceitar o convite para ser mordomo do Bodo, teve mais que ver com o contribuir para a manutenção de uma tradição do que propriamente uma questão religiosa. Não era uma promessa, nem mesmo um ato de fé. No entanto, agora, depois desta peregrinação pelos caminhos da freguesia onde vivo, olho toda esta caminhada, que terminará em junho de 2022, de outra forma, adensando as dúvidas e as inquietações. Uma provação? Um desafio? O quê?

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