“At the end of the road I see hope…”

A filarmónica entrava para dentro da marcha e os marchantes, rodeando-a, voltavam-se para as pessoas que, nos passeios da rua da Sé, naquela noite de 23 de junho de 1996, aplaudiam aquele grupo vestido de cores garridas a pular e a cantar rua abaixo como se não houvesse amanhã. Nos dias seguintes, muitos diriam que aquilo não era uma marcha. O jornal chamou-lhe “folia de São João”. Fosse o que fosse, naquela noite, um grupo de alunos, professores e funcionários da Secundária Vitorino Nemésio não teve vergonha de ir a Angra mostrar-se de uma forma diferente. Sabíamos todos que não estávamos a cumprir as regras. Mas de que servem as regras senão para serem quebradas?

A ideia de se fazer uma marcha, naquele ano, na nova escola da Praia, partiu de um grupo de alunas que trabalhou afincadamente para a concretizar. Logo no início do processo, contactaram o Luís Bettencourt e logo lhe deram carta branca criativa. E criou. E ousou. E o resultado foi o que se viu. Os que desse projeto fizeram parte, nunca mais olharam para uma marcha da mesma forma. Uma marcha de São João é, acima de tudo, divertimento, folia, festa, ser diferente e não ter medo de o ser.

Onde o Luís põe a mão, sai qualidade. Onde o Luís investe o seu tempo, nasce arte e arte é cultura.

Com o Luís aprendi a gostar de coisas diferentes. Na sua atividade de criador, abriu-me janelas para outros mundos, mostrou-me outras formas de estar na vida e provou-me que é possível ser-se mais, conhecer-se mais, ambicionar por outros conceitos estéticos. O Luís transformou uma cidade, pequena como é a Praia, num centro de referência cultural. Os mais novos já não se recordarão disso, mas a Praia foi uma capital cultural. Ponto de encontro de artistas e simpatizantes, a sala de espetáculos dos Açores, um exemplo daquilo que pode uma terra ambicionar, apesar da sua dimensão.

Ao Luís se deve a construção do Auditório do Ramo Grande. A ele ao José Fernando Gomes, claro, presidente da Câmara à época. Mas é ao Bettencourt que devemos aquilo não ser uma simples sala onde há um palco e nesse palco se fazem coisas. O Ramo Grande é muito mais do que isso. É um centro de cultura e, novamente, um ponto de encontro cultural, uma fábrica de criação, mercê da influência e dedicação deste homem. O Ramo Grande também foi um festival de música que se quer recuperado. Começou no velhinho, e sem condições, Salão Teatro Praiense. Apesar disso, os Açores da música e da cultura afluíram, ano após ano, àquele espaço, depois de jantarem no também velhinho Garça, para verem e ouvir o que o mundo tinha para oferecer. Não havia internet, nem canais de televisão temáticos, mas havia o Luís, que nos proporcionava todas essas experiências. Obrigado amigo!

Estranharão muitos o eu estar a publicar este texto. Talvez o possa ser (estranho). Contudo, não ficaria de bem comigo mesmo se o não fizesse. Não dormiria tranquilo se, sabendo da sua saída da Cooperativa Praia Cultural, nada dissesse. Nem que fosse um simples agradecimento público por tudo quanto fez por mim e pela cidade que eu tanto comento. O Luís é um amigo. Um bom amigo. Meu e da Praia. E aos amigos devemos agradecer o bem que nos fizeram, que nos fazem, mesmo sem que eles saibam disso. Já muitas vezes terei deixado agradecimentos por fazer, já terei prejudicado relações pessoais por isso, e não quero repetir a experiência.

O ano de 2022 será mais pobre na Praia. O Luís foi-se embora. A decisão é pessoal, eu sei, ele já me disse. Ainda assim, não perco a esperança de o voltar a ver novamente como o braço direito da cultura do meu concelho. A promover espetáculos, a fazer acontecer coisas como só ele é capaz. Criatividade, imaginação e iniciativa são atributos que não lhe faltam. Com o Luís parceiro prioritário na ação cultural da Praia, a Praia foi grande. Não podemos desperdiçar um talento como o dele.

Para terminar, uma lembrança: conta comigo na marcha do próximo ano! Há ainda muita coisa diferente para se fazer!

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